I Car

Atualizado: Fev 17

Sinopse: Troca de Mentes... Seria esse um nome inofensivo e bobo para um projeto universitário? Lucas descobriria isso na pele, ou melhor seria se eu dissesse que ele descobriria isso em sua carroceria? Bom, não importa, agora ele precisava correr contra o tempo para ter seu corpo de volta!


História:

I car

O laboratório de robótica da universidade ainda estava funcionando, era o único local do bloco que ainda emanava luz. Lucas estava atrasado, mas é claro senão não seria o Lucas, pensou que encontraria um mar de gente mal-humorada, mas o que ele viu, quando chegou correndo, foi sua colega das aulas de terça a Fátima.

- Hué? Eu cheguei tão tarde assim? Cadê o pessoal?

- Na verdade Lucas, para esse projeto eu preciso de apenas uma pessoa de confiança!

Lucas olhou para trás para ver se tinha mais alguém além dele...

- Você é perfeito sim, Lucas! Mas tem que ficar só entre nós!

- Tá... Eu vou embora... Só vim aqui porque eu estava precisando de AACC.

AACC é uma sigla para Atividades Acadêmico-Científico-Culturais, ele tinha que fazer duzentas e quarenta horas dessas atividades se quisesse se formar, mas como estamos falando do Lucas, faltava um semestre apenas e o garoto tinha feito só dez dessas horas.

- Espere! Faça isso pelo conhecimento! Você nunca ouviu falar do algoritmo de transferência de consciência que o Dr. Murilo desenvolveu?

- Não e nem quero saber, falou!

- Você veio com aquele seu carro vermelho novinho... Com painel eletrônico e...

“Pronto! Essa folgada vai querer carona agora...”.

- Eu vim! Mas eu não vou te dar carona.

- Tudo bem, até mais...

Lucas se virou e, antes de sair, sentiu uma picada ardida na nuca, suas pernas fraquejaram instantaneamente, caiu de bruços, a visão foi ficando turva... A última coisa que ele viu foram as anabelas vermelhas de Fátima.

............................

Havia uma coisa acolchoada embaixo, era algo bem confortável, mas tiras de algum material macio prendiam seus braços e pernas... Não podia ser uma boa coisa, aquelas tiras não pareciam ser o lençol de sua cama, que vivia saindo e enroscando nele, eram finas e apertadas.

As partes internas de suas pálpebras estavam laranjas, então o lugar onde estava era iluminado, sentiu confiança para finalmente abrir os olhos... Doeu um pouco, e assim que o foco de sua visão voltou, preferiu acreditar que era um pesadelo... Estava em uma sala espelhada, conseguiu ver seu carro preso ao teto por fios suspensos e um cabo enorme e cinza que saia dele, serpenteava o chão e ia para atrás de sua cabeça... Entrou em pânico, uma das paredes se levantou revelando Fátima:

- Vai ser rápido Lucas, eu só vou transferir sua mente para seu carro, depois vou voltá-la. – disse na maior tranquilidade como se estivesse avisando que iria mandar uma encomenda pelo correio.

Lucas não conseguia falar, começou a tremer e suas pupilas estavam dilatadas.

Fátima começou a digitar em um painel de realidade aumentada, o barulho do supercomputador da universidade ficou muito mais alto. Lucas sentiu que iria morrer, pensou em sua namorada Liara, que pediria em casamento no sábado, nos seus pais que se esforçaram tanto para colocá-lo ali na universidade... Mas tudo estava prestes a acabar...

- O que você está fazendo Fátima?

Era o Dr. Murilo, Lucas conheceria aquela careca cheia de pintas de longe. Esse professor quase o reprovou em Estrutura de Dados II. A um tempo atrás agradecia a Deus por não ter de vê-lo nunca mais, mas agora as coisas mudaram...

O doutor e a Fátima travaram uma batalha corporal, mas seja lá o que tivesse acontecido entre eles, já não importava mais, Lucas não pode ver mais nada.

...

Liara estava a porta do quarto dele, sentia-se sem forças para girar a maçaneta e reviver todas as memórias que havia tido com ele dês do ensino médio... Mas não tinha essa de não conseguir! Ela devia seguir em frente, porque os pais dele doariam tudo. Precisava dar seu último adeus e guardar o que pudesse daquele que fora o grande amor de sua vida.

Juntou o resto de coragem que ainda tinha e conseguiu entrar, mas não pode ver muita coisa de imediato, seus olhos estavam embaçados pelas lágrimas que não paravam de cair. Deitou-se na cama dele e ficou abraçada com seu travesseiro... Sentiu uma pequena argola dura dentro da fronha do travesseiro, enfiou os dedos fininhos por entre os tecidos puxou a argola para fora e lá estava... um belíssimo anel de noivado de ouro branco e uma graciosa pedra de brilhante... A dor já era excruciante, ela mal conseguia respirar, envolveu o anel em suas mãos e o abraçou como o último fragmento de um sonho que jamais se concretizaria.

Ela clamava a Deus que lhe desce forças para continuar vivendo e sem aquela terrível dor. Virou-se para a janela do quarto e ficou parada, era essa visão que Lucas tinha todas as noites quando dormia, nunca mais veria aquela rua, a gata persa do vizinho, o jardim de sua casa, seu cachorro fujão Wall-e e nem mesmo seu carro... Liara parou um pouco, o carro do Lucas não estava ali antes, será que já havia voltado do concerto?

Misteriosamente esse automóvel foi a única coisa que sobrou daquela noite, além do Dr. Murilo que estava em coma... Só ele poderia esclarecer como o laboratório explodiu pulverizando os corpos de seu amado e de Fátima.

Liara viu ainda o primo de Lucas, Francisco, atravessando a rua e indo na direção da casa, ficou extremamente irritada com a presença dele, esse menino simplesmente não desistia, dês do velório estava tentando conquistá-la.

Ela se levantou com ódio, abriu as cortinas e as janelas queria que todos os vizinhos ouvissem o que falaria para ele quando chegasse:

- Posso entrar? – Francisco batendo a porta.

- Não! Me deixa em paz, eu não quero nada com você!

- Liara, ele morreu esquece! Vamos conversar!

- Eu só tenho duas coisas para conversar com você, a primeira delas é: o Lucas sempre vai ser o grande amor da minha vida, e a segunda: eu jamais vou sair com você! Nem que a minha vida dependesse disso!

- Um não já seria o suficiente...

“Como se ele compreendesse o significado da palavra não!” Liara fechou a janela novamente e assim que a raiva passou voltou a chorar, pegara o anelzinho do bolso e colocara junto ao peito.

...

Pedrinhas começaram a alvejar a janela... Levantou-se com um ódio mortal por saber quem era:

- O que você quer? - esbravejou

- Você quer almoçar comigo?

- Vai se ferrar Francisco eu não quero mais ver a sua cara! – ela jogando um dos tênis de Lucas na cabeça dele.

- Sua doida!

- Você não viu nada ainda! – ela ameaçando-o com outro sapato.

Francisco virou correndo, teve sua fuça atingida pela porta do carro que abriu sozinha... Ele a xingou e saiu cambaleando pro meio da rua, quase foi atropelado por uma bicicleta.

...

Liara havia resgatado dois porta-retratos, todos os álbuns de fotos deles, seu fone de ouvido que Lucas jurava que não estava com ele, mas estava (isso a fez rir) e o carro!

A mãe dele lhe deu de presente, ficou tão agradecida que só sabia chorar diante dela, queria mais do que tudo tê-lo para si, vivera momentos muito felizes com Lucas naquele carro quem diga os lanches do Mcdonalds no drive thru e pretendia ficar com ele para sempre!

Sentou-se no banco de couro, massageou o volante e o ligou, ela andou por um bom tempo até o carro começar a dirigir sozinho e levá-la para um lugar deserto, atrás de um estacionamento de um mercado falido...

Liara já estava rouca de tanto gritar, agora estava esmurrando o painel...

- Liara! Dá para parar de me bater!

Era a voz de Lucas... O coração dela palpitou e deu um berro a plenos pulmões:

- Tá amarrado demônio, em nome de Jesus!

- Liara eu não sou um demônio fingindo ser o Lucas, eu sou o Lucas! O meu corpo está vivo! Só a minha mente que consegue se comunicar por esse carro!

Liara estava em choque, ela não sabia o que fazer ou que falar, pediu que Deus a ajudasse a discernir aquela situação, fechou os olhos e orou... A resposta veio mais rápido do que pode imaginar. Dr. Murilo apareceu de camisola e com alguns esparadrapos colados ao corpo... Num primeiro momento ela se assustou, mas o reconheceu! Mais do que ser o único sobrevivente do acidente, lembrava dele por ter sido seu professor. Antes de mudar de curso, de Ciências da Computação, o qual frequentou com Lucas, lembrou de ter ouvido algo em que convidava os alunos a participarem de um projeto intitulado: permutação da mente-humana.

O carro se abriu e ele voou para dentro no banco de trás:

- O senhor não estava internado?

- Sim, mas eu já estou forte como um cavalo...

Ele disse isso e ficou com a cabeça pendente para o lado como se estivesse dormindo... Liara o cutucou com um lápis e ele acordou assustado:

- Quero dizer quase, talvez a minha saúde esteja mais para a de um pangaré com asma, mas vamos levando... Lucas, precisamos ir ao laboratório sul antes que você morra!

- Eu não quero morrer!

- Eu também não quero que ele morra!

- Então corre meu filho, corre...

...

Correr em alta velocidade geralmente trás seus riscos, entre eles deixar a polícia extremamente brava, como agora. Até um helicóptero os estava perseguindo na reta final... Liara olhou para trás e viu que tinha uma ambulância junto:

- Você fugiu do hospital também?

- Sim, a minha esposa é benfeitora de lá, se eles me deixarem fugir sem eu estar cem porcento bem, estão ferrados, ela vai cortar a verba deles... Entendeu o desespero?

Lucas não disse mais nada a viajem inteira, talvez não quisesse continuar com aquela bizarrice toda deixando Liara ainda mais assustada e nervosa, mas ela sabia que seu amor estava cuidando dela de alguma forma. Ficou abraçada ao volante, sentiu que o massageador do banco havia sido ligado na frequência certa para que ela se sentisse o mais confortável possível naquela viajem louca.

- Você não vai perguntar como eu fugi?

- Não, eu só quero que você volte a mente do meu Lucas pro corpo dele, só isso...

- Mas eu vou contar mesmo assim, é muito maneiro... Tudo é por conta do meu marcapasso, eu pensei “já que vou ter que ficar com esse negócio o resto da minha vida, vou dar uma incrementada!”, sabe o que eu fiz? Eu sou um gênio, vamos lá! Imagine algo grandioso!

- Não...

- Existem trilhões de nano robôs vivendo nele agora, eles são responsáveis por tentar me consertar se eu meio que morrer... Acho que deu certo!

- Até demais...

...

Eles entram em um túnel próximo a universidade, foi bem a tempo, por um triz a polícia não conseguiu furar os pneus.

Assim que viraram no túnel, atravessaram uma parede falsa que se fechou instantaneamente, seguiram por um corredor comprido e estreito, quase que os retrovisores raspavam nas paredes. Uma forte luz branca foi chegando cada vez mais perto, até que o corredor se alargou revelando o corpo de Lucas em uma maca onde recebia soro. A bolsa contendo o líquido estava quase no fim. Era possível ver que o sangue dele estava subindo pelo cano transparente... Haviam chegado na hora certa.

Liara chorou de felicidade ao vê-lo, só não o abraçou e o beijou porque tinham que ir o mais rápido possível... Removeu o soro com cuidado, e colocou o plug atrás da nuca dele. Eram pequenos ganchinhos que não chegavam a furar a pele, ficou aliviada por isso. Antes de se afastar a pedido do Dr. Murilo, beijou os lábios adormecidos de seu amor.

Ele prendeu o carro nos cabos, acionou uma alavanca e o suspendeu até o teto. Depois travou-a novamente e correu para o painel próximo de onde Liara estava... Apertou alguns botões e, aparentemente, nada aconteceu...

- E agora?

- Já está acontecendo Liara, vai terminar daqui a uns segundos, dá para mascar um chicletinho enquanto isso, quer um?

- Não!

Liara não piscou enquanto não viu o corpo de Lucas dar algum sinal de vida... Ele tremelicou um pouco, ficou aflita, mordia o lábio inferior com tanta força que chegou a doer.

- Pode tirar o cabo, o rapaz já está de volta!

Ela corre até Lucas tira o cabo detrás de sua cabeça com cuidado... Mas ele não respondia. Liara começou a entrar em desespero, aproximou o ouvido ao peito dele e...

- BU!

- Seu filho da mãe! – abraçou-o com tanta força que Lucas sentiu alguns de seus ossos preguiçosos estalarem.

- Eu te amo, Lia... - ele disse beijando-a ardentemente sem se importar com a presença do doutor.

- Não quero atrapalhar vocês, mas eu tenho que dar um jeito na polícia, no governo e no Zé da ambulância... Vocês devem ir embora agora...

Ele abriu uma porta que dava para um campo atrás da quadra da universidade:

- Mas o que o senhor vai fazer? – Lucas

- Lucas, ele disse pra gente ir, não inventa!

- É só eu apagar a memória de todos...

- Você consegue fazer isso? – espantou-se Liara.

- É claro que consegue Lia, ele colocou a minha mente num carro!

...

Aparentemente o Dr. Murilo desistiu de mexer com a mente humana, aquilo era perigoso demais. Sentia-se culpado pela morte de Fátima, mesmo que ela própria tivesse optado por aquele caminho.

Ficou feliz por ser um dos padrinhos no casamento de Lucas e Liara, aceitara ao convite de pronto. Anos mais tarde ficou sabendo de uma habilidade peculiar que o jovem havia adquirido, virou um empresário de sucesso no ramo de mecânica automobilística, alguns diziam que ele tinha o dom de falar com as máquinas.

Fim

Tati de Mira





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