Mudança

Atualizado: Fev 17

Sinopse: Como decoradora e arquiteta, Isadora sabia muito bem como transformar espaços sem graça, feios e até enjoativos em espaços lindos e cheios de vida, mas e quando a mudança precisa ser feita na vida das pessoas? Para esse tipo de reforma existe um arquiteto mais que especializado, quer saber de quem se trata? Leia abaixo! ;)


História:

Mudança

A mãe de Isadora havia acabado de se aposentar e entregara a filha seu escritório de arquitetura. A jovem recém-formada nunca tinha assumido um projeto sozinha. Achou sua mãe um pouco desalmada por isso, mas no fundo sentia-se confortada, sabia que aquilo serviria para o seu próprio bem (ou para que ela tivesse seu primeiro ataque de nervos).

A cliente (cobaia) ligou dizendo que precisava de sua casa reformada antes do final do mês, precisava vendê-la o quanto antes, passou-lhe o endereço e, na manhã seguinte, Isa já estava no condomínio em frente à residência... De início ela não entendeu o porquê daquela casa precisar de uma reforma, a fachada estava muito bem cuidada. Era moderna com o teto embutido. O cinza quente parecia ter sido pintado no dia anterior, fora o gramado que estava impecável.

Bateu na porta e para seu espanto quem a atendeu foi uma conhecida que não via a muito tempo, Suzie. Ela era do grupo de louvor da igreja, fazia muito tempo que não a via nos cultos, pelo visto, havia mudado de igreja, ou pior...

Assim que Isa entrou, sentiu um cheiro muito forte de cigarro, tossiu involuntariamente:

- Desculpe, é o meu marido... Ex-marido... Bom, eu não fumo! - disse sem olhá-la nos olhos.

- Se você diz... Ele está?

- Você tem que falar comigo e não com ele, essa casa é minha! Preciso que você reforme a suíte principal... Está bem feinha, por favor, me siga...

Isa a seguiu, passou pela sala, deu uma olhada pelo corredor da cozinha e chegou à conclusão que tudo ali devia estar primorosamente decorado, era difícil acreditar que a suíte estivesse bem feinha.

- Chegamos. - abrindo a porta e estendendo a mão para que Isa entrasse... Ficou boquiaberta com o que viu, feinha era pouco. As paredes tinham marcas de sujeira marrom, o gesso do teto estava todo corroído (havia até um afundado muito parecido com o formato de uma cabeça), sem contar a paleta de cores do papel de parede que dava ânsia só de olhar, a cor dos arabescos lembrava muito abacate (vomitado) espremido.

- Entendi, eu preciso preencher o briefing... - disse abrindo sua pasta e derrubando metade das coisas que havia dentro. - Desculpe! Eu...

Suzie pegou os papeis que haviam caído próximos a ela, mas assim que pegou o último em mãos seus olhos pousaram sobre ele... Ela começou a chorar compulsivamente, sentou-se na cama com as mãos no rosto enquanto soluçava.

- O que foi? - Isa pegou o papel de suas mãos tremulas... Era um dos convites da igreja, sempre

carregava um caso precisasse convidar alguém, só não achou que seria usado tão cedo.

Suzie se levantou enfurecida e gritou:

- Por que você veio? Foi só pra me lembrar o quão suja eu estou?

- Não, Suzie! Com tantas decoradoras nessa cidade, por que justo eu? Deus quer que você volte, Ele está de braços abertos pronto para receber você...

Isa sentou-se ao lado dela e a consolou:

- Você quer voltar?

- Sim, mas eu não tenho forças... - murmurou

- Eu vou te ajudar, posso orar por você?

- Por favor!

Ela fez uma oração, Suzie chorou mais um pouco, ao terminarem disse que passaria mais a tarde para irem à igreja, além disso se ofereceu para acompanhá-la de perto até que ficasse espiritualmente bem. Quando saiu da casa, deu de cara com um homem de cabelo médio castanho tirando fotos da fachada:

- Você é a decoradora Isadora?

- Sim... e você é?

- Eu sou Roger o corretor... - respondeu estendendo-lhe um cartão - você acha que consegue dar um jeito na suíte pesadelo master até quando?

- Eu acho que até a finalização da mão de obra vai dar... umas duas semanas.

- Nossa! Era tudo o que eu precisava ouvir, parece até música! Escuta... Você não tá ouvindo o coro celestial e as cornetinhas... Não? Tá... Desculpe... Sabe eu tenho um comprador em potencial, mas ele quer que eu deixe a suíte do jeito que ele quer, estou aqui com uma lista do que precisa...

- Eu tenho que agradar a minha cliente não a você e o seu cliente... E... Se ela não se mudar mais? Voltar com o marido e decidirem ficar com a casa?

- Se depender de mim isso não vai acontecer eu preciso dessas comissões!

- Como assim "comissões" não é uma casa só?

- Hué, a comissão dessa casa e das outras duas que eu vou vender pro marido dela e a amante e a outra pra ela.

Isa revidou:

- Eles vão ficar juntos! E não vão deixar essa casa!

Ele começou a rir.

- Isso não é engraçado!

- É claro que é, eu conheço ela e o Caio dês de sempre, eles nunca se deram bem, duvido que você em duas semanas vai fazer com que eles fiquem juntos!

- Eu não, mas Deus vai! E quando acontecer você vai na igreja ver o testemunho deles!

- Se acontecer eu vou onde você quiser! Mas não vai!

- Vai!

...

Isa sabia que tinha feito a coisa certa, mais tarde, conforme prometido, havia ido pegá-la para irem à igreja. Terminado o culto já era possível notar uma diferença gritante em Suzie, a moça de semblante caído e triste agora estava para cima e o brilho havia voltado em seus olhos.

A palavra ministrada naquela noite era Ezequiel 37.12-14: “Portanto profetiza, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel.

E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir os vossos sepulcros, e vos fizer subir das vossas sepulturas, ó povo meu. E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR.”.

A partir dali as coisas só melhoraram. Suzie havia tomado aquela palavra para si. Era como ver uma pessoa que estava no leito de morte voltar a vida. Isa agradecia a Deus por fazer parte daquilo, era tudo muito gratificante. Não demorou nem um dia para que a própria Suzie profetizasse sobre seu casamento para que também voltasse a vida. Ela profetizava todos os dias, até que numa manhã seu marido apareceu na porta de casa, com suas malas, olhar triste pedindo-lhe perdão. Ela o aceitou, ambos se abraçaram e choraram.

...

Ele notara que sua esposa não era mais aquela mulher rixosa, quis acompanhá-la até a igreja, lugar responsável por fazer-lhe tão bem.

Àquela altura, Suzie já havia recobrado o seu ministério no grupo de louvor e seu marido não demorou a ser batizado. Agora estavam prontos para darem seu testemunho, tudo isso três dias antes do prazo que Isa havia dito a Roger... É claro que o corretor estava lá no dia, com uma cara de poucos amigos, enquanto Isa, sentada ao seu lado, estava triunfante dando glórias a Deus por Ele ser fiel e ter restaurado aquelas vidas. Entretanto, ainda faltava uma, o senhor Roger, ela pediu a Deus uma oportunidade de poder trazer-lhe a Cristo.

...

Os dois estavam a caminho do estacionamento:

- Nossa, eu pensei que não ia acabar nunca! Fica meia hora pedindo dinheiro!

- Você só presta atenção nisso, e os milagres e a pregação ministrada? Que com certeza ajudou muita gente? Aliás... você sabe que a igreja também tem custos? Luz, água, aluguel do prédio...

- Salário do pastor...

- Por que é errado? Esses homens dedicam as vidas deles para cuidar dessa multidão de gente, se consagrando, orando, jejuando e levando a Palavra!

- Ele deve ficar na casa dele dormindo a maior parte do tempo isso sim.

Isa revirou os olhos. Eles estavam quase chegando nos seus respectivos carros quando percebeu que Roger continuou olhando para ela, mas com uma cara de cachorrinho pidão:

- O que foi Roger?

- Isa, já que você gosta de ajudar os outros eu quero te pedir uma coisa...

- Cem reais! - brincou

- Deixa para lá eu me viro! – amarrou a cara e entrou no carro sem dizer nada.

Isa deu pequenas batidinhas no vidro do carro dele, mas ele deu ré e saiu em disparada.

...

Agora era o escritório de Isa que estava em reforma, precisava expandir o lugar, os negócios iam muito bem depois que reformara a suíte de Caio e Suzie, o boca-a-boca era tanto que já estava com a agenda lotada até o final do ano.

O jeito, por enquanto, foi o de dividir um espaço, para atender seus clientes, com uma amiga que estava enfrentando dificuldades em pagar o aluguel, ela era uma agenciadora de cuidadoras e babás.

- Ai Isa, eu preciso ir almoçar se alguém aparecer aqui fala que eu já volto... Espera, você conhece o Roger? – disse pegando o cartãozinho que Isa deixara sobre a mesa. Ela guardava aquele cartão com muito carinho, quando o pastor pedia para colocar foto ou a peça de roupa de alguém no altar para oração ela sempre o deixava lá. – Sim, nunca se sabe quando vamos precisar de um corretor...

- Ou de um namorado, ele é lindo! – disse devolvendo o cartão para a mesa dela. – Você acredita que ele veio desesperado me procurar, querendo que eu arranjasse uma cuidadora para mãe dele esse sábado?

Isa se sentiu mal, seria isso que Roger queria pedir a ela aquela noite?

- E ele conseguiu?

- É claro que não, pedidos assim tem que ser feitos com uma semana de antecedência, ele devia ter me pedido na sexta.

- Eu posso ir?

- Você mal sabe cuidar de um peixe-beta, vai saber cuidar de uma senhora com Alzheimer?

- Isso é uma calunia! - riu

- Ah é? Então por que o coitado do Astolfo não veio na mudança?

- Tá você venceu! Mas eu consigo! O que eu tenho que fazer?

- Esquece, eu não vou te indicar, mas se ele quiser, lavo minhas mãos, pode ligar do meu telefone... Só não coloque o meu nome na história falando que eu te indiquei!

- Tá, bom almoço...

- Obrigada, amiga! Boa conversa com o boy!

Isa deu um risinho, sentou-se na cadeira dela e ligou... Para seu espanto o rapaz atendeu de pronto:

- Conseguiu alguém, Ivone?

- Sim... - Isa respondeu, não pensou que ficaria nervosa ao ouvir a voz dele.

- Você não é a Ivone é? Ela morreu?

- Não, que horror Roger! Sou eu a Isa, posso te ajudar com a sua mãe?

Roger ficou um pouco em silêncio.

- Quem te falou da minha mãe, a Ivone? Linguaruda... Você nem é cuidadora, por que ela te falou isso?

- Porque ela viu o seu cartão na minha mesa e disse que você estava procurando uma cuidadora eu me ofereci para ajudar!

- Você ainda guarda o meu cartão?

- Claro... Por que não guardaria?

- Porque eu fui um idiota com você na igreja, me desculpa Isa... Eu estava bravo com o pastor, com a falta da minha comissão, com o meu periquito que fugiram com ele – afastou um pouco o celular da boca e resmungou - esse meu vizinho safado vai ver só! – voltou o celular para perto - Enfim... Você pode vir aqui em casa hoje à noite? A cuidadora vai estar aqui, daí ela te explica certinho o que tem que fazer, eu geralmente fico com a minha mãe no final de semana... Mas, como você me fez perder as comissões...

- Foi por uma boa causa!

- Tá eu sei... Anota o meu endereço, por favor.

Isa anotou e eles se despediram, ela ficou radiante o resto do dia.

...

A casa de Roger tinha um estilo retrô dos anos 70, os móveis eram alegres demais e chamativos, mas contrastavam muito bem com as paredes brancas e o piso de madeira escura. Isa foi recebida por Débora, a cuidadora, ela a levou para a sala e a primeira coisa que Isa notou foi uma enorme gaiola de teto vazia, deu um risinho abafado ao lembrar de Roger reclamando do vizinho safado.

Débora esperou que Isa se sentasse para dar as instruções, inicialmente disse que na verdade Roger conseguira se ausentar apenas de manhã e que a única coisa que ela precisava fazer seria dar a mãe dele, senhora Silvia, o café da manhã e depois a medicação. Apontou para uma caixinha azul dentro da cristaleira. Isa anotou, e quando terminou foi acompanhada por Débora até o quarto onde a senhorinha dormia. Ela parecia estar tendo algum pesadelo, seu esgar era tenso. Débora disse que estava mais agitada na última semana, podia ser um sinal de que a doença estava progredindo.

Isa deixou o quarto com um pesar tão profundo por aquela família que não pode deixar de orar por eles aquela noite antes de dormir.

...

Retornara a casa na manhã seguinte, Roger já estava saindo quando ele voltou só para agradecê-la e pagar-lhe... Isa disse que não ia aceitar nenhum dinheiro e caso ele insistisse iria embora. A contragosto ele concordou deixando-a sozinha com sua mãe. A senhora estava na cozinha sentada olhando para a porta de onde seu filho acabara de sair.

Isa sentou-se à frente dela e começou a dar-lhe um pouco de iogurte, depois a ajudou a comer um pouco de purê de cenouras que Roger já havia deixado preparado. Gentilmente, tentava conversar com ela, mas não reagia. A jovem quase chorou ao se colocar no lugar de Roger, devia ser horrível para ele ver sua mãe naquela situação, só não caiu em lágrimas, por não saber se isso deixaria a senhora Silvia agitada, ou a afetaria de alguma forma.

Assim que terminaram, Isa lhe deu a medicação e a levou para a sala, ligou a TV, e aproveitou para colocar no programa matinal de sua igreja, apresentado pelo mesmo pastor residente da cidade. O programa se chamava Manhã de Renovo, o nome remetia a Lamentações 3.22-23: ”Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade!”.

Ele estava em uma mesa de café da manhã com a bíblia aberta:

- Graça e paz irmãos, tudo bem? A palavra que tenho para compartilhar com vocês hoje fala sobre choro... Isso mesmo, choro! Você deve estar se perguntando: choro, pastor? Sim, não é errado você chorar, Jesus chorou, veja João 11.35... Mas existe um choro que trás a ira de Deus! Cuidado irmãozinho para que você não caia nesse erro, vamos ler Números 11.9-10: “E, quando o orvalho descia de noite sobre o arraial, o maná descia sobre ele. Então Moisés ouviu chorar o povo pelas suas famílias, cada qual à porta da sua tenda; e a ira do Senhor grandemente se acendeu, e pareceu mal aos olhos de Moisés.”. Esse choro era de murmuração, se Deus está te consolando, se Ele já te deu uma palavra, o seu maná, para você seguir em frente, pare de chorar! Esse choro de murmuração não agrada a Deus. Você sabe por que ficou assim? Você não guardou seu coração! Leia Hebreus 12.15: “Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem”.

Isa assustou quando Silvia começou a se derramar em lágrimas. Ela chorava e pedia perdão a Deus, ajoelhada e com as mãos junto a face pedia perdão veementemente.

Ela a observou de longe maravilhada, parecia que Silvia havia recobrado a razão, ela se levantou sã e abraçou Isa com força.

- Eu estou curada!

...

Silvia teve uma longa conversa com Isa aquele resto de manhã, ela lhe contara que tinha guardado muito ódio de sua mãe durante anos por tê-la expulsado de casa quando descobrira sua gravidez. Mesmo depois de receber o consolo de Deus, continuava com aquela amargura e choro, até aquele mal lhe sobrevir a alguns meses atrás.

Isa emocionada a abraçou novamente e as duas fizeram um pequeno culto de ação de graças... Até o vizinho safado, foi impactado com aqueles louvores e devolveu o periquito.

...

Ela não pode ver a reação de Roger, saiu antes que ele chegasse. Achou que aquele era um momento muito íntimo entre ele, sua mãe e Deus, orou para que aquele milagre o impactasse e ele se convertesse de uma vez por todas a Jesus... Foi o que aconteceu, Roger ligou para ela tão emocionado no dia seguinte, chorava como uma criança.

Eles foram a igreja juntos no culto de sexta, antes do início, Roger se sentiu na obrigação de pedir perdão ao pastor pelas coisas ruins que havia dito a respeito dele, pela primeira vez sua vista havia sido limpa e ele pode vê-lo como um homem de Deus, que fora enviado para cuidar daquela igreja e, principalmente, ser usado para libertar as pessoas, como sua própria mãe.

...

Roger até virou obreiro na igreja! Ele e Isa ficaram cada vez mais próximos até namorarem, casarem e terem quatro filhos... Eles continuam escrevendo o resto de sua história, mas sempre contando com o maná que Deus lhes dava todos os dias.

FIM.





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