Garotas CEOs


Capítulo 1 - Lascou.

Estavam todos almoçando uma bela refeição de domingo, tinha um frango enorme na mesa parecendo um dinossauro.

- Onde vocês compraram esse frangão? – era o pai da família, o patriarca, Gilson. Tinha baixa estatura, mas era corpulento.

Havia mais três pessoas: duas mulheres e um rapaz. Todos eram filhos de Gilson. A morena de cabelo curto, sentada à sua direita, era Antonela, a baixinha do lado esquerdo, Ingrid, e o garoto ao lado dela, arqueado sobre uma apostila, era Benício.

- Onde a gente sempre compra pai... - disse Antonela.

- Esse não é aquele frango da competição? – perguntou Gilson.

- Não sei - desconversou Ingrid.

- Vai me dizer que o Nícolas deu esse frango por causa da sua irmã!

- Ela nunca vai ser nossa irmã... - resmungou Benício baixinho.

- O que você disse Benício?

- Nada...

Gilson o olhou desconfiado e continuou:

- Para de ficar nisso aí, a mesa é lugar para comer!

- Que droga, se fosse aquela bastarda imunda você deixaria! - gritou saindo da mesa.

Gilson se levantou para ir atrás dele, mas Antonela o segurou:

- Pai, deixe isso pra lá, vamos comer...

- Onde está a Virgínia?

- Ela disse que ia ficar na casa de umas amigas fazendo um trabalho...

- É por isso que ela não veio com a gente. - completou Ingrid.

A porta se abre, uma garota de cabelo castanho escuro e olhos ovalados entra toda suada.

- Filha que trabalho rápido...

- Que trabalho pai? - perguntou a menina.

Antonela levou a mão a testa e Ingrid gritou:

- Por que você não fica quieta?

- Vocês a deixaram na escola de novo! Já chega! - vociferou ele - Todo mundo para sala, já!

As garotas obedeceram, Ingrid esbarrou em Virgínia de propósito, logo que o pai saiu para buscar Benício.

Com todos os filhos já presentes na sala, chamou Virgínia para que ficasse ao seu lado. A garota envergonhada, preferia olhar para o chão a ter que encarar o desprezo dos irmãos:

- É a irmã de vocês! Pelo amor de Deus!

- Não, ela é a prova viva de que o senhor traía a mamãe! - disse Ingrid apontando o dedo para Virgínia.

- Exatamente! – concordam Benício e Antonela.

- Ela não tem culpa disso! Ela é irmã de vocês tanto quanto... - Gilson colocou a mão no peito e se ajoelhou, estava arfando, seus filhos tentaram socorrê-lo, mas era tarde, o pobre velho tinha tido um infarto fulminante.

...

Virgínia foi transferida para um orfanato, seus outros irmãos não quiseram ficar com ela e, por ter só quatorze anos, não podia usar em nada a herança do pai.

Passou sua vida toda estudando na pior escola da cidade, a maioria dos alunos eram envolvidos com álcool, drogas, prostituição e todo o tipo de imoralidade.

Virgínia tentava aprender o máximo que podia sem chamar muito atenção, mas inevitavelmente, não deu certo. As outras garotas começaram a implicar com ela por causa do seu comportamento introvertido, das notas que tirava e dos elogios constantes que os professores lhe faziam.

Hoje, na aula de química, não foi diferente, a professora Harue estava entregando as provas e, mais uma vez, aproveitou a situação para elogiá-la. Virgínia não gostava nenhum pouco disso, as pessoas já não iam muito com a cara dela, quando era elogiada dessa maneira o ódio deles só aumentava (se é que isso era possível).

Assim que saiu da escola, foi cercada por um grupo de garotas. Uma delas colocou algo pontudo entre suas costelas e disse para que ela não gritasse... Elas a empurraram para dentro de uma casa abandonada e começaram a espancá-la, Virgínia gritou, mas quanto mais pedia por socorro mais era sufocada por murros e chutes, uma das meninas a amordaçou e depois uma outra com um estilete disse:

- Me deixa cortar a cara dela!

Virgínia não conseguia abrir os olhos de tão inchados que estavam, ela tremia, a única coisa que conseguia fazer era orar... Um grito desesperado de seu coração, pedindo que Deus a salvasse dali.

Um som de tiro seguido por um tilintar de estilhaços batendo no assoalho as assustaram, elas olharam para trás e havia um garoto de cabelo castanho e olhos esverdeados segurando uma arma... Correram atônitas, deixando o corpo de Virgínia estirado no chão.

...

Capítulo 2 – Amigas, irmãs.

Virgínia acordou no hospital, lembrava apenas de ter sido levada pelas meninas até aquela casa, depois disso, tudo não passava de um enorme borrão em sua mente. Sabia que fora espancada por elas, sentia ódio e queria que todas elas tivessem o pior destino que a vida naquele lugar poderia oferecer. As lembranças de seus irmãos a maltratando também vieram à tona, também desejou que fossem castigados de algum jeito... Fechava os olhos e só conseguia pensar nas mais diferentes maneiras de torturá-los... Sentiu prazer durante um tempo, mas depois seu coração se entristeceu e ela chorou baixinho, enquanto sentia as dores de seu corpo se intensificarem... Estava se sentindo mal por ter desejado todas aquelas coisas a essas pessoas... Pediu perdão a Deus e orou por cada um deles, seguindo assim o que aprendera em Mateus 5.44:

“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;”.

Do mais Virgínia estava feliz pelo bônus que recebera do hospital, ficaria de licença três semanas inteirinhas... Mesmo que durante o dia o orfanato ficasse assustadoramente vazio, ainda sim, era maravilhoso poder ficar sozinha. Estava lendo um livro em sua cama quando a diretora veio falar-lhe:

- Você tem visita...

Não perguntou quem era, provavelmente devia ser uma das professoras... Ficou surpresa quando viu que...

- Oi – era Jéssica, uma das meninas de sua sala, a mais alta da escola toda. Tão quieta quando VirgÍnia, mas ninguém implicava muito com ela por terem medo de seu tamanho e por seu pai ser um atirador aposentado.

- Oi... – disse Virgínia envergonhada, seu rosto ainda estava bem inchado e com alguns hematomas.

Jéssica estava com os olhos marejados.

- O que foi Jéssica?

- Que horrível o que fizeram com você! - disse indo abraçá-la.

Virgínia aceitou o abraço... Tentou retribuir, mas seus movimentos saíram duros e mecânicos. Não esperava que algum aluno daquela escola fosse visitá-la, muito menos a Jéssica.

- Tudo bem! Olha, eu tô viva! Com a cara meio amassada, mas tô viva! Podia ter sido pior, mas graças a Deus já estou bem.

- Que bom, eu me senti mal pelo que aconteceu com você... Eu não sei... Talvez se nós fôssemos amigas isso não teria acontecido...

- Não teria mesmo, o povo morre de medo do seu pai!

- Imagina, meu pai é um doce.

- Mas deve saber atirar muito bem!

- Haha, é mesmo... Você vai voltar pra escola... Quero dizer... Sabe, eles vão te mudar?

- Não adianta Jéssica, se eu mudar o problema vai continuar me acompanhando... Todas as escolas aqui perto são desse jeito e eles não têm condições de me mandar pra longe daqui.

- Posso sentar? – disse olhando para os pés da cama dela.

- Não!

- Desculpe!

- É brincadeira pode sim.

Elas riem.

- Você é legal Virgínia... Fico feliz que você vai voltar! – animou-se.

- Eu vou voltar lá e tentar sobreviver...

- Agora vai ficar mais fácil, eu acho.

- Por quê? Agora que elas vão pegar ainda mais no meu pé, devem ter se dado muito mal e agora vão querer se vingar de mim.

- Você não ficou sabendo?

- Não... – Virgínia cruzando os braços.

- O Alessandro proibiu qualquer pessoa de encostar em você, se não... – Jéssica passou o dedo de um lado a outro no pescoço.

Virgínia a olhou assustada colocando a mão em seu o próprio para se certificar de que estava tudo bem.

- Quem é esse Alessandro?

- Você não conhece?

- Não faço ideia!

- Ele é filho do contrabandista mais perigoso da cidade, foi ele quem chamou o resgate pra você.

Virgínia teve um flash de memória e uma dor intensa... A expressão de dor dela assustou Jéssica que já estava na porta pronta para chamar alguém.

- Vou chamar a diretora!

- Não eu só... Me lembrei! O que será que ele estava fazendo naquela casa?

- Sei lá... Usando drogas?

- Ou escondendo alguma coisa! E se tiver um tesouro lá, ou algo assim?

- Ou gente morta! Você não está pensando em ir lá... está?

- Claro... que não!

- Ah bom, eu já ia achar que bateram demais na sua cabeça.

Elas riem juntas mais uma vez, conversaram por mais algumas horas (coisa que Virgínia nunca fez na vida) e quando Jéssica finalmente foi embora teve a sensação de ter ganhado sua primeira amiga.

...

Virgínia voltara para a escola, as pessoas passavam por ela cochichando, mas não se atreviam nem mesmo a olhá-la nos olhos. Jéssica não fora na aula hoje, tinha ficado com intoxicação alimentar por causa de uma coxinha com recheio duvidoso...

Quando chegou na sala tudo estava normal, a não ser por uma aluna nova de cabelo vermelho cheguei e curto. Assim que se sentou ela veio se apresentar:

- Oi, eu sou July! Você é nova aqui, não é? Precisa de ajuda?

Ah, é verdade... Virgínia passou tanto tempo fora que pra moça ali a novata era ela mesma.

- Oi, na verdade eu já estudava aqui... é que... Me espancaram e eu só tive alta hoje.

- Como você fala isso assim na maior naturalidade! Me conta essa história direito menina... Menina? É assim que vocês falam aqui?

- De onde você é? - Meg notando que ela tinha um sotaque arrastado.

- Meus pais são missionários cristãos da Inglaterra, estamos fazendo um trabalho aqui com crianças carentes da comunidade.

- Uou, July! Que legal, a gente podia fazer um trabalho desses aqui na escola...

Virgínia acabara de fazer uma nova amiga, em pouco tempo as duas já estavam pensando em fazer um projeto cristão na escola. Quando Jéssica voltou, achou aquilo ótimo e as três se uniram e criaram a ABE (Associação Bíblica Escolar).

A diretora cedeu uma sala para elas, tinha esperanças de que as coisas na escola mudassem e, aos poucos, vira isso acontecer. No começo havia poucos, mas depois de uma garota ter sido curada de uma psoríase horrível nas mãos, as reuniões começaram a ficar mais cheias. Era notória a diferença em toda a escola, as brigas cessaram, a média dos alunos aumentaram, os casos de gravidez na adolescência caíram drasticamente e Virgínia ganhara um novo lar. Os pais de July a adotaram.

...

Do outro lado da cidade Nícolas estava na feira vendendo frango assado junto com a mãe, eles também tinham uma granja que vendia frango caipira e ovos orgânicos. De tempos em tempos ele via os irmãos de Virgínia passarem por lá, tinha vergonha de perguntar por ela, mas a saudade o estava matando... Não que ele e Virgínia fossem grandes amigos, na verdade mal haviam trocado algumas palavras, mas ele tinha um amor platônico por ela, a única pessoa que sabia disso era o pai de Virgínia, pelos olhares e mimos que ele insistia em entregar-lhe quando passavam lá.

- Oi, meus queridos! - a mãe dele cumprimentando Benicio e as irmãs. – Pode levar mais esses três ovos aqui... Sinto muito não termos ido no enterro do pai de vocês, estávamos em Campos do Jordão... A pequena Virgínia está bem?

- Não sei dona Ester...

Nícolas arregalou os olhos castanhos (salpicados de verde) e pensou: “Como assim não sabe?”.

- Como assim não sabe? – sua mãe dando voz ao seu pensamento.

- Ela está em um orfanato do outro lado da cidade, lá no Fortunas... Não pudemos ficar com nossa irmãzinha! – choramingou Antonela.

- É! O juiz não deixou a pobrezinha ficar conosco, dá pra acreditar? – Era Ingrid, ela havia platinado o cabelo.

- Mentirosos! Vocês odiavam ela! Onde a mandaram?

- Nícolas! – ralhou-lhe Ester, beliscando o braço dele.

O garoto correu de raiva... Havia ido parar na barraca de bugigangas e cacarecos contrabandeadas da feira. Os donos dali tinham lojas espalhadas pela cidade toda, e meio que controlavam o comércio da região, formando um enorme cartel. O filho deles, Alessandro, estava lá hoje, comendo um pastel, enquanto cuidava da barraquinha.

- O que foi, Nícolas? – disse dando uma mordida no pastel e quase queimando a boca.

- Nada!

- Ninguém fica bravo por nada, fala aí mano... – disse puxando um banquinho de plástico para ele.

- Os irmãos da garota que eu gosto fizeram mal pra ela!

- Tipo o que? – disse deixando o pastel em cima do balcão com medo de sofrer outra queimadura de terceiro grau...

- Eles não quiseram ficar com ela e jogaram a pobrezinha num orfanato do outro lado da cidade, no Fortunas! É o pior lugar do mundo! Sem ofensas... – tentou se desculpar por lembrar que Alessandro era de lá.

- Não ofendeu, é ruim mesmo... Mas até que as coisas estão menos piores, tem umas meninas na escola que fizeram um projeto com a bíblia... Sei lá... só sei que nem parece mais a minha antiga escola.

- É? Você também tá participando?

- Não, não... Se eu entrar num negócio desses meu pai me mata, mas eu me sinto bem, porque eu fui um dos responsáveis por isso acontecer, sabia disso?

- Sei... – Duvidou Nícolas.

- Sério, eu que salvei uma das meninas lá que faz as paradas, pode perguntar para ela se quiser.

- Quem é?

- É a Virgínia.

- Virgínia? – levantou-se atônito.

Capítulo 3 – Reencontro.

Nícolas tomou a decisão de ir até a escola de Virgínia amanhã mesmo... Ou depois... Quem sabe semana que vem? Talvez a coragem decidisse aparecer até lá... Mas ela nunca veio na realidade. Cansado de esperar, decidiu ir daquele jeito mesmo, mãos suando, pernas tremulas e uma vergonha quase que mortal para dizer um simples "oi, tudo bem?". Sabia que Virgínia estudava de manhã, fora vê-la na hora da saída. Seus olhos de águia vasculharam todos os cantos, e nada de ver sua garota de olhos ovalados. Apressou-se e decidiu falar com a inspetora, antes que ela fechasse o portão na cara dele:

- Virgínia? - espantou-se a inspetora. - Olha, ela não estuda mais aqui já faz uns três meses...

- Três meses! - doeu-se Nícolas.

O garoto se arrependera amargamente de não ter vindo antes.

- Por que você quer saber? - Ela desconfiada.

- Eu a conheço há muito tempo, antes dela vir para cá... E agora... - Nícolas estava quase chorando.

- Ei, calma, você gosta dela?

- Sim demais... - ele pesaroso.

- É difícil não gostar dela, essa menina vale ouro!

- Você sabe pra onde ela foi? - perguntou ansioso, com esperanças de que fosse do lado da casa dele.

- Eu sei que ela se mudou com a família adotiva para a capital.

Capital era o soco que ele não esperava receber.

- Obrigado... - disse com a voz embargada, sabia que nunca mais veria Virgínia de novo.

...

Era uma casa estreita, mas altíssima que ficava em um bairro elegante de Tintura. Muito bem vigiado pela guarda local, por ter o metro quadrado de pessoas mais importantes da cidade. Fazia um bom tempo que não se registrava nenhum roubo, assalto ou sequestro naquela região. Os policiais responsáveis pela ronda seletiva esse ano estavam bem em frente a essa casa esguia, quando uma janela chamou a atenção de um deles...

- Suspeito! – gritou o novato de madeixas douradas.

- Por quê? Come a sua coxinha aí logo...

- Vê ali... Parece que foi arrombada, nós temos que ir lá ver!

- É só alguém cabeçudo que deixou a janela meio aberta... – comentou de boca cheia. – Se você não comer sua coxinha logo, eu vou!

- Fique à vontade, mas eu vou ir lá ver! -disse abrindo a porta do carro.

- Calma aí! – Segurou-o pelo braço. – Eu faço questão de ir lá, e, se não tiver nada, eu vou esfregar o seu nariz naquele vidro.

Ele saiu e foi até a janela, examinou-a, ficou um tempo mexendo na trinca, abaixou-se, pegou um arco de metal caído próximo ao parapeito e fez sinal para que seu parceiro novato viesse depressa.

- Nem vem esfregar a minha cara na janela Jão... – Disse já com os braços em frente ao corpo para se defender. Seu parceiro Jão era bem maior que ele, tinha traços indígenas e parecia um armário.

- Tem uma coisa errada sim, alguém arrombou... – ponderou ele, mostrando o arco de metal quebrado.

- Vamos entrar! – exclamou o loiro tomando a frente e entrando na casa.

- Espera! Eu não cabo aí! Ah! Droga! – reclamou Jão, que teve de dar a volta na residência para arrombar a porta da frente.

Dentro da casa, o rapaz viu um vaso chinês estilhaçado no tapete de camurça, ele foi adentrando em estado de alerta com a arma em mãos. O piso de porcelanato imitando madeira não fazia nenhum barulho, os únicos ruídos que ouvia era o de Jão tentando arrombar a porta da frente e um outro bem baixinho vindo do armário da escada... Ele tentou abri-lo, mas como não conseguiu o forçou com o ombro... Havia uma moça ruiva amordaçada olhando para ele com os olhos assustados:

- Moça, eu sou policial vou te tirar daí!

...

Na delegacia, a jovem deu seu depoimento, ainda em lágrimas contou que um homem encapuzado a amordaçou e a jogou dentro do armário da escada. Depois contou da visita dos policiais e a única coisa que dera por falta, seu notebook. A casa tinha um cofre cheio de dinheiro e joias, ela própria estava usando algumas delas e eles não levaram absolutamente nada, achou estranho que o meliante não quis levar algo mais.

- É um caso incomum... A senhora trabalha com o que? – perguntou o escrivão.

- Eu e a minha irmã temos uma empresa de publicidade, nós duas moramos ali...

- Entendo, vou passar isso ao investigador, ele pode ir até a casa de vocês amanhã?

- Sim, por favor!

- Assine aqui... Não! Aqui! – disse apontando para o outro lado.

Logo que terminou de assinar com a mão tremula, perguntou:

- Posso ir?

- Claro senhorita July, uma viatura vai acompanhá-la. – disse olhando para Jão e o novato.

Ao chegar na viatura Jão e July foram na frente, enquanto o rapaz teve que ir no fundo do camburão. Ele era um ser esquecido lá, os outros dois riam e conversavam na frente. Seu único companheiro ali nas profundezas era um pedaço de alface gelatinoso... Sentiu um pouco de nojo ao lembrar que aquele vestígio fora causado por um homem bêbado que eles carregaram mais cedo aquele dia.

Chegaram e deixaram a jovem em casa, Jão demorou um pouco até voltar, mas ele não soltou seu parceiro, foi direto ao volante:

- Não tá esquecendo nada, não?

- Ou... Foi mal...

Ele desceu e abriu o camburão, todo sorridente.

- Até que enfim!

- Sabe, ainda bem que eu fui lá ver a janela...

- Você não teria ido se não fosse por mim! – disse o loiro colocando o cinto.

- Isso são detalhes, o importante é que eu acabei de marcar um encontro com a mulher da minha vida.

- Não tem alguma norma do regimento que impede um policial de ter algum tipo de envolvimento amoroso com vítimas?

- Se tiver, olha a minha cara de quem se importa...

- Você quem sabe... Nossa! Esqueci de avisar parceiro! Eu tenho que ir no dentista amanhã cedo, vou tirar atestado. – disse mostrando os dentes de baixo com aparelho.

- Eu não queria ver isso não... Mas tá bom, você sabe que a tarde eu vou ficar doente e vai ser a sua vez de ficar com o investigador.

- Como assim você vai ficar doente?

Jão o olhou com olhos risonhos.

- Deve ter algo no regimento sobre isso também, mas eu sei que você não se importa.

...

Na manhã seguinte ele fora ao dentista, tinha esperanças de se ver livre daquelas peneiras de comida ainda hoje.

O consultório da Dra. Lúcia era muito limpo, os cuidados com a higiene começavam antes de se passar pela porta da sala de espera. Havia uma caixa com várias pantufas protetoras que as pessoas tinham de usar por cima dos calçados, isso evitava uma possível contaminação vinda da rua. Mas, se você olhasse um pouco mais atentamente, veria que as luminárias do teto estavam cheias de aleluias mortas e outros insetos enterrados em uma camada grossa de poeira.

Dessa vez o jovem policial esperou bem menos do que de costume para ser atendido, o que era um milagre e ao mesmo tempo uma pena, porque não tinha terminado de ler seu gibi.

Ao chegar deu de cara com a nova assistente da Dra. Lúcia, a filha dela, Renata. A garota estava fazendo estágio ali. Por enquanto tinha apenas o título de assistente. Já era a segunda vez que ele a via e sabia o quanto era nervosa e estabanada, várias vezes derrubava materiais esterilizados no chão, fazia as colinhas do aparelho com proporções erradas e entregava as lixas diferentes do que a mãe dela pedia. Como era a segunda vez que a via e a última aconteceu a um mês, pensou que a garota devia ter melhorado bastante, mas isso não importava muito, quem ia mexer em seus dentes seria a mãe e não ela.

A jovem o colocou na cadeira verde-gelo e a reclinou um pouco, depois colocou o babador nele.

- Vou pedir para você abrir a boca daqui a pouco, tudo bem?

- Desculpa, mas não é a Dra. Lúcia? – Questionou meio assustado.

- Ela me pediu para ir adiantando as coisas... – Respondeu mexendo em alguns instrumentos metálicos num carrinho atrás dele.

Ele engoliu em seco e disse:

- Eu espero a sua mãe, não tem problema...

- Não, eu já vi a sua ficha, é rápido... Ai, droga! – exclamou depois de um barulho estridente no carrinho. Ele esticou o pescoço para ver, mas só conseguiu enxergar as costas dela.

O loiro ficou meio apreensivo, afinal, era uma estagiária, mas se a Dra. Lúcia a deixou adiantando as coisas significava que ela sabia o que estava fazendo...

- Tá tudo bem aí?

- Sim! – disse com a voz um pouco esganiçada.

- Ok... – ele meio apreensivo.

- Pronto! – virou-se com uma seringa. – Abre a boca.

Ele relutou um pouco mais abriu... Sentiu uma picada e sua boca toda ficar mole.

- O que você está fazendo Renata? – era a inconfundível voz de comando da Dra. Lúcia.

- Desculpe, mãe, eu pensei que...

- Pensou? Por que você está aplicando anestesia nele? – correu para uma mesinha ao lado onde a ficha estava aberta – Ele não é o senhor Nicols!

- Eu juro que ouvi a recepcionista falar Nicols!

Resultado, o policial loirinho teve que pegar um atestado pro dia todo até seu rosto voltar ao normal. A moça havia aplicado uma anestesia um pouco forte demais, acabou por paralisar o rosto dele, o pobre nem conseguia abrir os olhos depois de alguns minutos da aplicação.

...

Em casa, depois de algumas horas, conseguira enxergar de novo, mas ainda sentia sua boca estranha e molenga... Queria dormir por sentir sonolência, estava quase caindo no sono... A campainha começou a tocar, ele custou um pouco a sair da cama, mas decidiu ir pela insistência da pessoa do outro lado, que pelo jeito não o deixaria adormecer em paz enquanto não fosse atendida.

- Ra ai... – disse com um pouco de dificuldade.

Ele olhou pelo olho mágico e era uma mulher muito bonita de óculos escuros e cabelos negros... Tentou arrumar um pouco a juba antes de atender... Mas como ela havia parado de apertar, abriu a porta as pressas antes que fosse embora.

- Esculpi... – disse com a boca mole.

A jovem estava segurando uma sacola muito cheirosa de algo assado, ficou um tempo olhando para ele... Seus lábios estavam hesitantes... Por fim, ela tirou os óculos...

- Nícolas?

Ele reconheceria aqueles olhos ovalados em qualquer lugar:

- Irgínia!

...

Capítulo 4 – Quase falidos.

O jornal da cidade de Segunda-feira geralmente não tinha muita coisa de destaque para noticiar, mas quando um escândalo como o da empresa Guaranitos, a principal mantenedora da cidade, vinha à tona, eles tinham o dever de falar daquilo todo o santo dia...

- E agora nós vamos passar com exclusividade, eu repito, exclusividade! A 20ª parte da entrevista com a família Favero!

A mesma vinheta que eles usavam para anunciar notícias de acidentes e coisas mórbidas estava tocando agora...

- Senhor Benício, então o senhor não recebia propina do governo? – era uma repórter baixinha.

- Pela 20ª vez, não!

- E a funcionária que está acusando o senhor, senhor Benicio, de assédio e racismo?

- Ela é uma oportunista! Eu não tenho culpa se ela não consegue bater a meta...

- Mas e a acusação de assédio?

- Eu nunca ia fazer uma coisa dessas, eu sou casado e tenho filhos! Ela que tentou se insinuar para mim, como eu não quis nada, inventou essa história...

- O senhor tem provas disso?

- Sim.

- Pode mostrar para a gente?

- Não, está com o meu advogado.

- Ok, você gosta de sushi?

- O que isso tem a ver?

- Por quê? o senhor tem preconceito contra a cultura japonesa?

- Não, eu só não gosto... detesto na verdade!

- O senhor acabou de ofender toda uma cultura, como o senhor se sente?

A musiquinha sinistra começou a tocar de novo e cortou para o apresentador do jornal.

- Mais dessa entrevista polêmica amanhã cedo! O Jornal da Matuta vai ficando por aqui! Tenham todos um dia estupendo!

As pessoas do aeroporto viram essa reportagem sendo exibida nos telões da sala de embarque. Ingrid viu tudo enraivecida, tinha a mesma aparência de anos atrás, mas seus olhos cansados denunciavam sua idade, um pouco mais madura. Ela estava esperando seu voo vestindo uma echarpe cinza e óculos de gatinho.

- Moça, você está bem? – Perguntou uma senhorinha.

- Sim estou! - disse com os dentes cerrados.

- Espera, eu te conheço! Você é uma das donas da Guaranitos! A irmã do Benício!

- Não é da sua conta! - disse se levantando e indo até o painel de vidro logo a frente.

...

Na casa de Nícolas, ele e Virgínia estavam tendo o encontro mais surreal de suas vidas:

- Eu não acredito! Você é o policial que salvou a minha irmã?

- Na erdade eu só fiz o meu derer... Dorga! - ele com vergonha de falar daquele jeito.

- O que aconteceu com a sua fala? Você vai ficar bem?

- Eu fui na dentixta e aplicarram anestechia errada em mim...

- Nossa! Você tá podendo comer? Bem... É que eu trouxe isso aqui... Me desculpe!

- Poxu sim, obrirgadu... - disse pegando a sacola cheirosa.

Virgínia estava rindo, com as bochechas coradas.

- Você não adivinha o que é?

Ele aproximou a sacola do nariz e cheirou, era frango assado.

- Não é tão bom quanto o da sua mãe, mas...

- Axa, muito obrirgadu... - alegrou-se por ver que ela ainda se lembrava dele.

Virgínia sentiu seu coração se aquecer ao reparar no belo sorriso dele e na covinha charmosa que fora formada do lado direito.

- Quer entrar? – convidou olhando-a fundo nos olhos.

- Eu tenho que ir agora Nícolas, foi bom te ver... Até... - despediu-se desviando o olhar.

Nícolas não respondeu, apenas a olhou indo embora... Outra vez.

...

Capítulo 5 - Pega ladrão!

Conseguiram pegar o notebook das meninas ainda aquela manhã, os ladrões não haviam ido muito longe. Tinham parado para comer esfirra e, ao tentar assaltar o estoque do restaurante, ficaram presos no freezer.

No interrogatório, disseram que trabalhavam para uma “força maior”... Ou eram as drogas ou o gelo do freezer que tinha prejudicado os neurônios deles, mas, de qualquer maneira, a força maior fez sentido, quando brotaram vários advogados ricaços na delegacia que conseguiram converter a pena deles em quatro meses de serviço comunitário, encerrando o caso.

Nícolas temeu por Virgínia, decidiu investigar por conta própria, já que seu parceiro Jão disse que só moveria seus preciosos músculos se tivesse uma prova concreta... Nícolas sabia muito bem que prova concreta era essa, se o mundo não caísse na cabeça dele ou a coxinha da padaria da esquina não acabasse, estava tudo em paz e qualquer outra coisa além disso era paranoia...

- Por que você está com essa cara de zumbi?

- Nada eu só...UAAAAA... - grunhiu ao abrir a boca para bocejar, dava até pra ver as amidalas dele.

- Você tá com uma namorada nova, né? Seu safadinho! – Jão dando um soco no braço dele.

- Não é nada disso seu boçal! Me deixa em paz... – disse esfregando os olhos enquanto tomava um longo gole de café.

- A July e eu estamos namorando! Eu a pedi ontem à noite e... Você está dormindo?

Jão deu um chacoalhão em Nícolas, o garoto acordou assustado:

- Seja lá o que você esteja fazendo, é melhor maneirar... Você ainda está em estágio probatório, se o comandante te pegar dormindo assim, vai levar advertência.

- Tá, falou o cara que pede propina da padaria! – disse irritado.

- Eu só peço e eles dão, o que vou fazer a respeito?

- Nem vou comentar o jeito intimidador que você pede...

Jão freou o carro bruscamente e o olhou de um jeito ameaçador.

- Cara, só me deixa em paz... – respondeu Nícolas.

...

Virgínia e July haviam voltado ao trabalho normalmente, as duas estavam criando uma campanha publicitária para um famoso buffet infantil da cidade, o Marmelão, que de uns tempos para cá não estava lá essas coisas...

- Graças a Deus a gente terminou o briefing! – July aliviada.

- E ainda tá de dia, olha só... Que mulher indecisa, credo... – Virgínia apertando o alarme do carro.

- Eu só quero comer agora, minha vista tá ficando preta já...

Virgínia riu.

- A Jéssica está servindo p.f. agora na padaria dela, quer ir lá?

- Quer milho bode? – Parou um pouco e perguntou - Eu usei essa expressão do jeito certo?

- Sei lá, eu nem sabia que essa expressão existia, mas relaxa July você é muito mais brasileira que eu... Olha a minha cor pálida esquisita, eu vou ficar transparente daqui a pouco!

As duas riem e seguem caminho até a padaria.

...

A padaria da Jéssica era a mesma onde Jão pedia as coxinhas. Mesmo tendo muitas pessoas qualificadas trabalhando em seu negócio, ela mesma fazia questão de, pelo menos na parte da tarde, ficar na cozinha, lugar que amava.

Quando soube que suas velhas amigas iriam almoçar lá, fez questão de oferecer aquela refeição por conta da casa. Aproveitou para se sentar à mesa com elas e botar o papo em dia...

- E ela cortou o cabelo!

- Não acredito!

Virgínia não gostava de conversar enquanto comia, era a mais calada das três e quando eu digo calada era calada mesmo.

- Virgínia fala alguma coisa!

- Falar e comer ao mesmo tempo engasga. – afirmou Virgínia.

- Que mentir... garsp... – engasgou July.

- Eu não disse? - Virgínia pegando uma garfada banhada com gema dourada de ovo e... Engasga, ao olhar pela janela e ver Nícolas no banco do carona de uma viatura.

- Meu Deus, será que é por causa da pimenta que eu coloquei? – perguntou Jéssica dando uma garfada no prato de Virgínia.

-Hei! – reclamou ela.

- Oi senhoras... - Jão entrou, tirou os óculos e ficou empalidecido ao ver que uma das senhoras era July.

- Oi amor! Que coincidência! - July se levantou e o abraçou.

Jéssica ficou olhando-o de esguio.

- O que foi? – perguntou Virgínia.

- Esse é o policial que todo dia vem pedir propina pra mim!

- Vai lá e fala pra July, o que você está esperando?

- Tem razão amiga!

- É claro que eu tenho... – Virgínia aproveitou que Jéssica saiu para terminar sua refeição em paz.

- July! Que bom que esse policial é o seu namorado!

- É? Por quê? – July perguntou.

Jão suplicava com o olhar para que Jéssica não o entregasse...

- Ele vem todo o dia pedir propina aqui!

- Que mentira! – disse Jão apontando o dedo para Jéssica.

- Esses dias eu disse que não ia dar coxinha para ele e ele ameaçou fazer uma blitz aqui na rua! Você acha que alguém ia querer passar aqui pra comprar alguma coisa?

- Você fez isso mesmo Jão? – July desapontada.

- Sim! – falou Jéssica – Pergunta pra Creuza! Né Creuza?

Uma senhorinha estica o braço caquético de dentro da janela da cozinha com um joinha.

- Eu não acredito Jão! - esbravejou.

- Pois não acredite! - Jão tentando abraçá-la.

- Sai daqui! - July chorando e o empurrando ao mesmo tempo.

Jão dá alguns passos para trás até sair cabisbaixo pela porta.

Jéssica foi confortar a amiga e as duas voltaram a se sentar.

- Eu não acredito... - ela chorando.

- Para de chorar mulher, ainda bem que Deus te mostrou antes quem ele era... Imagina se vocês dois se casam? - Virgínia tomando o resto de sua água de coco.

- Virgínia, você é muito insensível, não precisa falar assim...

- Desculpa... Jéssica, o loirinho da viatura também faz isso?

- Não, mas ele nunca fez nada a respeito, deve deixar o outro fazer todo o trabalho sujo por ele.

- E se ele falou? Não dá pra saber...

- Pois é, não dá para saber, mas de qualquer forma eu não confio nesses policiais! - disse Jéssica

July continuava chorando sem parar.

- Ah... e você vai confiar em quem, nos bandidos? - irritou-se Virgínia - Até onde eu sei você não conseguiu abrir as outras lojas lá no Jaraguá justamente por causa dos roubos!

- Eu não estou dizendo que são todos os policiais, mas tem gente deles que não presta!

- Antes ter só um pouco que não presta do que todos... Tem algum bandido que presta? - observou Virgínia.

- Mas alguns entraram nessa vida por não terem condições...

- O seu pai deve estar se revirando no túmulo Jéssica... - Virgínia rindo.

- Mas é verdade!

- A única verdade que eu vejo aqui é que você acabou de ofender todo mundo que, nas mesmas condições que eles, se esforçam na vida e não precisam prejudicar ninguém!

- Meninas parem! - July tentando enxugar as lágrimas com as costas das mãos.

- Eu não vou parar, depois que a Jéssica começou a namorar aquele progressista idiota, ficou besta...

- Você não sabe de nada Virgínia, sai da minha padaria agora! - Jéssica enfurecida.

- Eu vou mesmo! - Virgínia pega a bolsa e deixa a chave do carro sobre a mesa.

- Espera Virgínia! - July segurando o braço dela.

- Ela me expulsou! Você não viu? Olha o ódio do bem aí... - Virgínia força o braço para baixo e se solta da irmã.

Sem olhar para trás, caminhava a passos firmes... Quando perdeu a padaria de vista, assustou-se ao ouvir um barulho alto de correia e logo em seguida uma freada brusca atrás de si... Duas mãos fortes a agarram pela cintura e a jogam dentro de um carro que ela nem ao menos conseguiu ver a cor.

- Não grite, ou vai ser pior para você... - era uma mulher loira muito bem vestida e com o pescoço adornado por várias joias caras.

...

Cap. 6 - Investigação

Assim que terminou o expediente, Nícolas continuou com sua investigação. Havia descoberto que todos os advogados do caso dos bandidos do notebook levavam a um nome: Alessandro Meise... Até onde Nícolas se lembrava, o amigo havia deixado essa vida de criminalidade há muito tempo, mas de qualquer maneira decidiu falar com ele.

A mansão Meise ficava em um condomínio fechado de alto padrão da cidade, mesmo com todas aquelas construções grandiosas a cúpula da mansão de seu amigo era vista de qualquer lugar ali, e não demorou muito para chegar até ela:

- Meu marido não está... - era a mesma mulher loira de pescoço adornado com joias caras.

- Desculpe senhora, mas ele acabou de me mandar uma mensagem. - disse mostrando o celular para ela.

- Ele acabou de sair...

- Quem é? - ouviu uma voz ao fundo.

- Sou eu Alessandro...

- Ah! Entre Nico!

A mulher fez cara de poucos amigos e o deixou entrar.

- Siga o doce som da minha voz... - disse Alessandro dando início a uma cantoria de música brega logo em seguida.

A casa por dentro era tão esplendorosa quanto seu exterior, o corredor por onde Nícolas havia entrado, do lado esquerdo do hall, era coberto de placas de jade das paredes ao teto, o chão de mármore branco contrastava muito bem com o verde luxuoso ao redor, assim que chegou até onde a musiquinha estava gritante, bateu a porta.

- Até que enfim, pode entrar!

Nícolas entrou e deu de cara com Alessandro todo sorridente inclinado em sua cadeira de escritório de couro marrom.

- Senta aí, quer jantar aqui em casa?

- Não... Na verdade Alessandro, eu quero saber qual é a sua relação com a Virgínia?

- Que é isso rapaz, como você descobriu?

Nícolas decidiu jogar verde...

- Descobrindo... Oras! - exclamou cruzando os braços.

- Você não contou pra minha mulher que ela era a minha amante, contou?

- O que? - Nícolas sentiu sua pressão cair um pouco.

- É brincadeira, eu nem sei quem é essa garota...

- Então porque todos os seus advogados foram chamados pra defenderem dois caras que assaltaram a casa dela semana passada?

-Advogados atendem todo mundo, por que você acha que sou eu?

- O único cliente que eles têm em comum é você e a sua esposa!

Alessandro colocou a mão no queixo, olhou para a janela, contemplou a bela vista com a cachoeira artificial de sua piscina e depois voltou-se para Nícolas.

- Pode ser que tenha sido coisa da minha mulher, a família dela ainda é envolvida em algumas coisas... Vou investigar... - disse com um suspiro.

- Obrigado!

- Qual é o nome dela?

- Virgínia Favero...

...

Cap.7 – Chegada

July estava preocupada com Virgínia, ela não atendia as ligações e ninguém a havia visto, mesmo que tivesse passado apenas algumas horas, decidiu ir até a delegacia... Quando saiu, deu de cara com uma mulher de óculos de gatinho e olhos cansados...

- A Virgínia está?

- Quem é você?

-Eu sou a Ingrid, irmã dela...

...

Nícolas estava em casa com um pijama de flanela xadrez pensando em sua garota de olhos ovalados, mais uma vez matutava em como a pediria para sair... A campainha tocou bem na hora que ele tinha passado essa parte chata e estava com ela em seus braços...

- Já vai! – disse impaciente.

Abriu a porta e era ela... Mas era uma versão dela que ele não queria ver...

- Me ajuda, por favor! – suplicou. Virgínia estava descabelada, olhos inchados, tremia e chorava muito.

O primeiro impulso de Nícolas foi colocá-la para dentro... Envolveu o braço em volta de seu ombro e a guiou até o sofá... Ele cobriu as costas dela com sua manta e perguntou:

- Você quer beber alguma coisa?

Ela ficou quieta olhando-o, sempre que tentava abrir a boca começava a chorar...

- Espera aí! – ele correu para a cozinha, se lembrou que Virgínia e o pai às vezes iam na padaria a noite e pediam sempre uma bebida quente de chocolate cremoso com chantili.

Preparou a bebida rapidamente e trouxe para ela.

Virgínia com as mãos trêmulas começou a tomá-la... Conforme o líquido quente e cremoso descia por sua garganta, suas bochechas coravam e seu corpo já não tremia mais.

- Pode falar quando quiser, seja lá o que aconteceu você está segura agora!

...

Capítulo 8 - Beijo

- Eu fui sequestrada... - disse finalmente

- Eles te machucaram? - perguntou Nícolas, sentando-se ao lado dela e segurando em sua mão.

- Não, graças a Deus... - respirou fundo e continuou – Me pegaram quando eu saí da padaria... Deram muitas voltas comigo, me ameaçaram e fizeram todo o tipo de terror psicológico!

- Você conseguiu identificar alguém?

- Era uma mulher loira com um monte de colar no pescoço...

- Espera... É essa mulher aqui? - Nícolas pegou o celular e mostrou uma foto para ela. Era uma dos contatos, a mulher loira estava ao lado de Alessandro.

- Sim! Esse aqui é o Alessandro?

- Sim.... Você o conhece? - disse com um pouco de ciúmes. lembrou-se da brincadeira de mal gosto que Alessandro fizera mais cedo, insinuando coisas.

- Ele estudou comigo, mas é essa mulher sim!

- O que ela disse?

- Ela me perguntou se eu tinha dado início a alguma campanha publicitaria da empresa do meu pai, eu disse que não... Daí ela me ameaçou dizendo que se eu os ajudasse, ela iria voltar e dar um jeito na minha irmã e eu...

- Mas os seus irmãos te odeiam, por qual motivo eles iriam vir atrás de você?

- Não sei... Talvez porque eu sou muito boa? - Virgínia rindo.

- Eu não duvido... Não foram vocês que conseguiram reerguer a imagem daquela empresa de carne?

- Sim, como você sabe?

Nícolas havia pesquisado tudo sobre Virgínia até mais do que deveria...

- Eu estava pesquisando o caso do notebook por fora... Achei muito estranho aqueles dois indigentes arranjarem tantos advogados de renome daquele jeito.

- Entendi! Mas porque eles queriam roubar o meu notebook?

- Não sei para pegar algum dado seu talvez...

- Eu não guardo nada no meu notebook, fica tudo na nuvem.

- Não sei, Virgínia, dá para conseguir muita coisa com o notebook pessoal de alguém...

- E agora o que eu faço?

- Virgínia por enquanto faz o que ela mandou você fazer, se alguém te procurar da sua família não atende.

- Mas e se eles precisarem de ajuda?

- Não! Você não pode, se você não consegue pensar nenhum segundo sequer em você, eu penso! - tossiu e continuou - quero dizer... pensa que a vida da sua irmã também está em risco.

- Obrigada... - Virgínia disse sem jeito

- Não precisa agradecer, eu só fiz o que qualquer policial faria... Você está melhor? - ele apreensivo.

- Não, não estou... Me irrita te ouvir falando que não fez nada demais, você sabe que não seriam todos que fariam isso!

- Qualquer bom policial faria isso.

- Então, eu te agradeço por ser um bom policial... E por fazer o melhor chocolate quente que eu tomei na vida! -disse tentando beber a última gota do fundo do copo- Você acredita que eu tomava um igual esse com o meu pai?

- Sabia... Por isso eu fiz.

- Como assim? - Surpreendeu-se Virgínia.

- Como eu falo isso sem parecer bizarro... - ele disse envergonhado enquanto olhando pro tapete - Dia de sexta você e o seu pai iam na padaria do meu tio... Eu ficava lá igual um idiota te olhando.

- Você gostava de mim?

- Sim, eu quase morri quando os seus irmãos te jogaram no orfanato.

- Por que você nunca falou comigo?

- Porque eu tinha muita vergonha... Na verdade ainda tenho... - riu ele.

- Você ainda gosta de mim? - sussurrou Virgínia.

- Sim... - disse olhando finalmente para ela.

- E se eu disser que gosto de você?

- Eu te beijaria...

- Então pode me beijar...

Ela fechou os olhos e esperou, ouviu o barulho rápido do couro sendo friccionado a seu lado e logo em seguida sentiu os lábios dele... eram úmidos...gentis...esfomeados...

- Eu esperei tanto tempo por isso... Você não sabe como... - disse mordiscando os lábios dela de novo.

- Não precisa esperar mais... - disse olhando-o fundo nos olhos enquanto entrelaçava os dedos nas madeixas douradas dele.

Nícolas a abraçou com força, nunca pensou que sentiria o cheiro de xampu de frutas do cabelo dela tão perto assim, só podia agradecer:

- Obrigado meu Deus, pelo dia que eu salvei a July!

Virgínia arregala os olhos, lembrou-se de sua irmã e como ela devia estar preocupada...

- Nossa Nícolas! Eu tenho que avisar a minha irmã, ela deve estar morrendo de preocupação!

...

CAP.9 – Investigador Castro.

July estava na sala orando quando escutou a porta se abrindo, levantou assustada e começou a chorar quando viu a irmã entrando.

- O que houve? - perguntou abraçando-a com força.

Lá fora pela janela, Nícolas acompanhou o reencontro das duas irmãs, sorriu durante um tempo, mas depois lembrou que tinha um caso para resolver.

...

No sistema da polícia, havia levantado a ficha da mulher de Alessandro, de nome Carmen Estefânia, e dos membros familiares mais próximos a ela, o único que tinha passagem pela polícia era o pai, senhor Gavião Celestino Estefânia, por roubo de cargas, quando tinha 17 anos. Sabia que depois ele ficou sócio do pai de Alessandro, em uma rede lojas de 1,99 mais conhecidas do país. Ai já dava pra saber que a família toda dela tinha o rabo preso com o crime organizado. Mas o que Virgínia e a antiga família dela tinham a ver com isso? Decidiu procurar pelos irmãos... A única coisa que achou foi um boletim de ocorrência sobre uma ameaça de morte do irmão mais novo de Carmen contra Benício... Agora as coisas estavam começando a se encaixar... Ligou para o investigador.

...

- Castro, eu sei que é tarde, mas...

- Tá brincando? Eu só não me ajoelho aqui pra te agradecer porque vai sujar minha calça nova...

- O que?

- Cara, você me livrou de uma reunião chata com a família da minha namorada! Pode me pedir o que quiser.

- Tá eu quero um milhão...

Eles riem.

- Falando sério agora, aconteceu o seguinte...

Depois de contar toda a história pra ele, o investigador começou a coçar o queixo e a andar de um lado para o outro.

- E aí? Você acha que consegue descobrir o que pode ser?

- Não só descobrir, mas como também prender algumas pessoas...

...

Depois que Virgínia contara tudo a irmã, percebera que ela estava pálida:

- July, eu sei que isso que aconteceu comigo foi bizarro, mas você quer me contar alguma coisa? Você está pálida demais!

- A sua meia-irmã esteve aqui...

- Ela esteve?

- Sim, ela queria a nossa ajuda para empresa deles.

- Mas porque eu? Eles sempre foram tão orgulhosos...

O investigador lia os lábios delas por um binóculo:

- Isso é o que eu vou descobrir.

....

Capítulo 10 – final.

Bauru, 15 de janeiro de 2020

Meu nome é investigador Castro e isso é a única coisa que vou revelar a vocês sobre a minha pessoa. Digo que o caso dos irmãos Favero foi o mais fácil e medíocre de toda a minha carreira, chegou a dar sono na maioria das vezes, só o prolonguei mais do que devia, porque a minha namorada queria que eu gravasse tiktoks com ela e, bem, esse caso era a desculpa perfeita.

Agora vamos esclarecer tudo, Virginia já havia recebido a parte da herança do pai que lhe cabia, mas o velho havia escondido um cofre que só abriria com a biometria da íris dos quatro irmãos. Todo esse dinheiro seria suficiente para tirar a empresa do buraco, mas todos os irmãos deveriam usar o dinheiro para essa finalidade. Eles pretendiam usar a irmã e embolsar todo o dinheiro sem lhe contar a verdade, eu não deixei é claro. No fim Virginia, sendo o poço de bondade que era, doou o dinheiro aos irmãos. Eles ficaram extremamente gratos e começaram a tratá-la como irmã, o que é o mínimo. A mulher do Alessandro foi presa, por sequestro e tentativa de assassinato, não vou contar essa do “assassinato”, vai demorar muito e o meu almoço está me esperando no micro-ondas. As motivações dessa mulher, eram impedir a empresa Guaranitos de se reerguer. Um possível retorno desta prejudicaria seus negócios de bebida alcoólica, já que ficou mundialmente comprovado que a maioria das pessoas preferem refrigerantes a cerveja.

Esse foi o desfecho, que resultou em alguns bônus para mim, entre eles de participar de dois casamentos e comer de graça: o da July com o Jão e do Nícolas com a Virginia.

Por hora é só, amanhã contarei o caso das almondegas do Zoológico, até mais.

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