Garotas CEOs: Capítulo 2 - Amigas, irmãs.

Atualizado: Fev 16

Virgínia acordou no hospital, lembrava apenas de ter sido levada pelas meninas até aquela casa, depois disso, tudo não passava de um enorme borrão em sua mente. Sabia que fora espancada por elas, sentia ódio e queria que todas elas tivessem o pior destino que a vida naquele lugar poderia oferecer. As lembranças de seus irmãos a maltratando também vieram à tona, também desejou que fossem castigados de algum jeito... Fechava os olhos e só conseguia pensar nas mais diferentes maneiras de torturá-los... Sentiu prazer durante um tempo, mas depois seu coração se entristeceu e ela chorou baixinho, enquanto sentia as dores de seu corpo se intensificarem... Estava se sentindo mal por ter desejado todas aquelas coisas a essas pessoas... Pediu perdão a Deus e orou por cada um deles, seguindo assim o que aprendera em Mateus 5.44:

“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;”.

Do mais Virgínia estava feliz pelo bônus que recebera do hospital, ficaria de licença três semanas inteirinhas... Mesmo que durante o dia o orfanato ficasse assustadoramente vazio, ainda sim, era maravilhoso poder ficar sozinha. Estava lendo um livro em sua cama quando a diretora veio falar-lhe:

- Você tem visita...

Não perguntou quem era, provavelmente devia ser uma das professoras... Ficou surpresa quando viu que...

- Oi – era Jéssica, uma das meninas de sua sala, a mais alta da escola toda. Tão quieta quando VirgÍnia, mas ninguém implicava muito com ela por terem medo de seu tamanho e por seu pai ser um atirador aposentado.

- Oi... – disse Virgínia envergonhada, seu rosto ainda estava bem inchado e com alguns hematomas.

Jéssica estava com os olhos marejados.

- O que foi Jéssica?

- Que horrível o que fizeram com você! - disse indo abraçá-la.

Virgínia aceitou o abraço... Tentou retribuir, mas seus movimentos saíram duros e mecânicos. Não esperava que algum aluno daquela escola fosse visitá-la, muito menos a Jéssica.

- Tudo bem! Olha, eu tô viva! Com a cara meio amassada, mas tô viva! Podia ter sido pior, mas graças a Deus já estou bem.

- Que bom, eu me senti mal pelo que aconteceu com você... Eu não sei... Talvez se nós fôssemos amigas isso não teria acontecido...

- Não teria mesmo, o povo morre de medo do seu pai!

- Imagina, meu pai é um doce.

- Mas deve saber atirar muito bem!

- Haha, é mesmo... Você vai voltar pra escola... Quero dizer... Sabe, eles vão te mudar?

- Não adianta Jéssica, se eu mudar o problema vai continuar me acompanhando... Todas as escolas aqui perto são desse jeito e eles não têm condições de me mandar pra longe daqui.

- Posso sentar? – disse olhando para os pés da cama dela.

- Não!

- Desculpe!

- É brincadeira pode sim.

Elas riem.

- Você é legal Virgínia... Fico feliz que você vai voltar! – animou-se.

- Eu vou voltar lá e tentar sobreviver...

- Agora vai ficar mais fácil, eu acho.

- Por quê? Agora que elas vão pegar ainda mais no meu pé, devem ter se dado muito mal e agora vão querer se vingar de mim.

- Você não ficou sabendo?

- Não... – Virgínia cruzando os braços.

- O Alessandro proibiu qualquer pessoa de encostar em você, se não... – Jéssica passou o dedo de um lado a outro no pescoço.

Virgínia a olhou assustada colocando a mão em seu o próprio para se certificar de que estava tudo bem.

- Quem é esse Alessandro?

- Você não conhece?

- Não faço ideia!

- Ele é filho do contrabandista mais perigoso da cidade, foi ele quem chamou o resgate pra você.

Virgínia teve um flash de memória e uma dor intensa... A expressão de dor dela assustou Jéssica que já estava na porta pronta para chamar alguém.

- Vou chamar a diretora!

- Não eu só... Me lembrei! O que será que ele estava fazendo naquela casa?

- Sei lá... Usando drogas?

- Ou escondendo alguma coisa! E se tiver um tesouro lá, ou algo assim?

- Ou gente morta! Você não está pensando em ir lá... está?

- Claro... que não!

- Ah bom, eu já ia achar que bateram demais na sua cabeça.

Elas riem juntas mais uma vez, conversaram por mais algumas horas (coisa que Virgínia nunca fez na vida) e quando Jéssica finalmente foi embora teve a sensação de ter ganhado sua primeira amiga.

...

Virgínia voltara para a escola, as pessoas passavam por ela cochichando, mas não se atreviam nem mesmo a olhá-la nos olhos. Jéssica não fora na aula hoje, tinha ficado com intoxicação alimentar por causa de uma coxinha com recheio duvidoso...

Quando chegou na sala tudo estava normal, a não ser por uma aluna nova de cabelo vermelho cheguei e curto. Assim que se sentou ela veio se apresentar:

- Oi, eu sou July! Você é nova aqui, não é? Precisa de ajuda?

Ah, é verdade... Virgínia passou tanto tempo fora que pra moça ali a novata era ela mesma.

- Oi, na verdade eu já estudava aqui... é que... Me espancaram e eu só tive alta hoje.

- Como você fala isso assim na maior naturalidade! Me conta essa história direito menina... Menina? É assim que vocês falam aqui?

- De onde você é? - Meg notando que ela tinha um sotaque arrastado.

- Meus pais são missionários cristãos da Inglaterra, estamos fazendo um trabalho aqui com crianças carentes da comunidade.

- Uou, July! Que legal, a gente podia fazer um trabalho desses aqui na escola...

Virgínia acabara de fazer uma nova amiga, em pouco tempo as duas já estavam pensando em fazer um projeto cristão na escola. Quando Jéssica voltou, achou aquilo ótimo e as três se uniram e criaram a ABE (Associação Bíblica Escolar).

A diretora cedeu uma sala para elas, tinha esperanças de que as coisas na escola mudassem e, aos poucos, vira isso acontecer. No começo havia poucos, mas depois de uma garota ter sido curada de uma psoríase horrível nas mãos, as reuniões começaram a ficar mais cheias. Era notória a diferença em toda a escola, as brigas cessaram, a média dos alunos aumentaram, os casos de gravidez na adolescência caíram drasticamente e Virgínia ganhara um novo lar. Os pais de July a adotaram.

...

Do outro lado da cidade Nícolas estava na feira vendendo frango assado junto com a mãe, eles também tinham uma granja que vendia frango caipira e ovos orgânicos. De tempos em tempos ele via os irmãos de Virgínia passarem por lá, tinha vergonha de perguntar por ela, mas a saudade o estava matando... Não que ele e Virgínia fossem grandes amigos, na verdade mal haviam trocado algumas palavras, mas ele tinha um amor platônico por ela, a única pessoa que sabia disso era o pai de Virgínia, pelos olhares e mimos que ele insistia em entregar-lhe quando passavam lá.

- Oi, meus queridos! - a mãe dele cumprimentando Benicio e as irmãs. – Pode levar mais esses três ovos aqui... Sinto muito não termos ido no enterro do pai de vocês, estávamos em Campos do Jordão... A pequena Virgínia está bem?

- Não sei dona Ester...

Nícolas arregalou os olhos castanhos (salpicados de verde) e pensou: “Como assim não sabe?”.

- Como assim não sabe? – sua mãe dando voz ao seu pensamento.

- Ela está em um orfanato do outro lado da cidade, lá no Fortunas... Não pudemos ficar com nossa irmãzinha! – choramingou Antonela.

- É! O juiz não deixou a pobrezinha ficar conosco, dá pra acreditar? – Era Ingrid, ela havia platinado o cabelo.

- Mentirosos! Vocês odiavam ela! Onde a mandaram?

- Nícolas! – ralhou-lhe Ester, beliscando o braço dele.

O garoto correu de raiva... Havia ido parar na barraca de bugigangas e cacarecos contrabandeadas da feira. Os donos dali tinham lojas espalhadas pela cidade toda, e meio que controlavam o comércio da região, formando um enorme cartel. O filho deles, Alessandro, estava lá hoje, comendo um pastel, enquanto cuidava da barraquinha.

- O que foi, Nícolas? – disse dando uma mordida no pastel e quase queimando a boca.

- Nada!

- Ninguém fica bravo por nada, fala aí mano... – disse puxando um banquinho de plástico para ele.

- Os irmãos da garota que eu gosto fizeram mal pra ela!

- Tipo o que? – disse deixando o pastel em cima do balcão com medo de sofrer outra queimadura de terceiro grau...

- Eles não quiseram ficar com ela e jogaram a pobrezinha num orfanato do outro lado da cidade, no Fortunas! É o pior lugar do mundo! Sem ofensas... – tentou se desculpar por lembrar que Alessandro era de lá.

- Não ofendeu, é ruim mesmo... Mas até que as coisas estão menos piores, tem umas meninas na escola que fizeram um projeto com a bíblia... Sei lá... só sei que nem parece mais a minha antiga escola.

- É? Você também tá participando?

- Não, não... Se eu entrar num negócio desses meu pai me mata, mas eu me sinto bem, porque eu fui um dos responsáveis por isso acontecer, sabia disso?

- Sei... – Duvidou Nícolas.

- Sério, eu que salvei uma das meninas lá que faz as paradas, pode perguntar para ela se quiser.

- Quem é?

- É a Virgínia.

- Virgínia? – levantou-se atônito.

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VERSÃO NARRADA:


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