Garotas CEOs: Capítulo 3 - Reencontro.

Nícolas tomou a decisão de ir até a escola de Virgínia amanhã mesmo... Ou depois... Quem sabe semana que vem? Talvez a coragem decidisse aparecer até lá... Mas ela nunca veio na realidade. Cansado de esperar, decidiu ir daquele jeito mesmo, mãos suando, pernas tremulas e uma vergonha quase que mortal para dizer um simples "oi, tudo bem?". Sabia que Virgínia estudava de manhã, fora vê-la na hora da saída. Seus olhos de águia vasculharam todos os cantos, e nada de ver sua garota de olhos ovalados. Apressou-se e decidiu falar com a inspetora, antes que ela fechasse o portão na cara dele:

- Virgínia? - espantou-se a inspetora. - Olha, ela não estuda mais aqui já faz uns três meses...

- Três meses! - doeu-se Nícolas.

O garoto se arrependera amargamente de não ter vindo antes.

- Por que você quer saber? - Ela desconfiada.

- Eu a conheço há muito tempo, antes dela vir para cá... E agora... - Nícolas estava quase chorando.

- Ei, calma, você gosta dela?

- Sim demais... - ele pesaroso.

- É difícil não gostar dela, essa menina vale ouro!

- Você sabe pra onde ela foi? - perguntou ansioso, com esperanças de que fosse do lado da casa dele.

- Eu sei que ela se mudou com a família adotiva para a capital.

Capital era o soco que ele não esperava receber.

- Obrigado... - disse com a voz embargada, sabia que nunca mais veria Virgínia de novo.

...

Era uma casa estreita, mas altíssima que ficava em um bairro elegante de Tintura. Muito bem vigiado pela guarda local, por ter o metro quadrado de pessoas mais importantes da cidade. Fazia um bom tempo que não se registrava nenhum roubo, assalto ou sequestro naquela região. Os policiais responsáveis pela ronda seletiva esse ano estavam bem em frente a essa casa esguia, quando uma janela chamou a atenção de um deles...

- Suspeito! – gritou o novato de madeixas douradas.

- Por quê? Come a sua coxinha aí logo...

- Vê ali... Parece que foi arrombada, nós temos que ir lá ver!

- É só alguém cabeçudo que deixou a janela meio aberta... – comentou de boca cheia. – Se você não comer sua coxinha logo, eu vou!

- Fique à vontade, mas eu vou ir lá ver! -disse abrindo a porta do carro.

- Calma aí! – Segurou-o pelo braço. – Eu faço questão de ir lá, e, se não tiver nada, eu vou esfregar o seu nariz naquele vidro.

Ele saiu e foi até a janela, examinou-a, ficou um tempo mexendo na trinca, abaixou-se, pegou um arco de metal caído próximo ao parapeito e fez sinal para que seu parceiro novato viesse depressa.

- Nem vem esfregar a minha cara na janela Jão... – Disse já com os braços em frente ao corpo para se defender. Seu parceiro Jão era bem maior que ele, tinha traços indígenas e parecia um armário.

- Tem uma coisa errada sim, alguém arrombou... – ponderou ele, mostrando o arco de metal quebrado.

- Vamos entrar! – exclamou o loiro tomando a frente e entrando na casa.

- Espera! Eu não cabo aí! Ah! Droga! – reclamou Jão, que teve de dar a volta na residência para arrombar a porta da frente.

Dentro da casa, o rapaz viu um vaso chinês estilhaçado no tapete de camurça, ele foi adentrando em estado de alerta com a arma em mãos. O piso de porcelanato imitando madeira não fazia nenhum barulho, os únicos ruídos que ouvia era o de Jão tentando arrombar a porta da frente e um outro bem baixinho vindo do armário da escada... Ele tentou abri-lo, mas como não conseguiu o forçou com o ombro... Havia uma moça ruiva amordaçada olhando para ele com os olhos assustados:

- Moça, eu sou policial vou te tirar daí!

...

Na delegacia, a jovem deu seu depoimento, ainda em lágrimas contou que um homem encapuzado a amordaçou e a jogou dentro do armário da escada. Depois contou da visita dos policiais e a única coisa que dera por falta, seu notebook. A casa tinha um cofre cheio de dinheiro e joias, ela própria estava usando algumas delas e eles não levaram absolutamente nada, achou estranho que o meliante não quis levar algo mais.

- É um caso incomum... A senhora trabalha com o que? – perguntou o escrivão.

- Eu e a minha irmã temos uma empresa de publicidade, nós duas moramos ali...

- Entendo, vou passar isso ao investigador, ele pode ir até a casa de vocês amanhã?

- Sim, por favor!

- Assine aqui... Não! Aqui! – disse apontando para o outro lado.

Logo que terminou de assinar com a mão tremula, perguntou:

- Posso ir?

- Claro senhorita July, uma viatura vai acompanhá-la. – disse olhando para Jão e o novato.

Ao chegar na viatura Jão e July foram na frente, enquanto o rapaz teve que ir no fundo do camburão. Ele era um ser esquecido lá, os outros dois riam e conversavam na frente. Seu único companheiro ali nas profundezas era um pedaço de alface gelatinoso... Sentiu um pouco de nojo ao lembrar que aquele vestígio fora causado por um homem bêbado que eles carregaram mais cedo aquele dia.

Chegaram e deixaram a jovem em casa, Jão demorou um pouco até voltar, mas ele não soltou seu parceiro, foi direto ao volante:

- Não tá esquecendo nada, não?

- Ou... Foi mal...

Ele desceu e abriu o camburão, todo sorridente.

- Até que enfim!

- Sabe, ainda bem que eu fui lá ver a janela...

- Você não teria ido se não fosse por mim! – disse o loiro colocando o cinto.

- Isso são detalhes, o importante é que eu acabei de marcar um encontro com a mulher da minha vida.

- Não tem alguma norma do regimento que impede um policial de ter algum tipo de envolvimento amoroso com vítimas?

- Se tiver, olha a minha cara de quem se importa...

- Você quem sabe... Nossa! Esqueci de avisar parceiro! Eu tenho que ir no dentista amanhã cedo, vou tirar atestado. – disse mostrando os dentes de baixo com aparelho.

- Eu não queria ver isso não... Mas tá bom, você sabe que a tarde eu vou ficar doente e vai ser a sua vez de ficar com o investigador.

- Como assim você vai ficar doente?

Jão o olhou com olhos risonhos.

- Deve ter algo no regimento sobre isso também, mas eu sei que você não se importa.

...

Na manhã seguinte ele fora ao dentista, tinha esperanças de se ver livre daquelas peneiras de comida ainda hoje.

O consultório da Dra. Lúcia era muito limpo, os cuidados com a higiene começavam antes de se passar pela porta da sala de espera. Havia uma caixa com várias pantufas protetoras que as pessoas tinham de usar por cima dos calçados, isso evitava uma possível contaminação vinda da rua. Mas, se você olhasse um pouco mais atentamente, veria que as luminárias do teto estavam cheias de aleluias mortas e outros insetos enterrados em uma camada grossa de poeira.

Dessa vez o jovem policial esperou bem menos do que de costume para ser atendido, o que era um milagre e ao mesmo tempo uma pena, porque não tinha terminado de ler seu gibi.

Ao chegar deu de cara com a nova assistente da Dra. Lúcia, a filha dela, Renata. A garota estava fazendo estágio ali. Por enquanto tinha apenas o título de assistente. Já era a segunda vez que ele a via e sabia o quanto era nervosa e estabanada, várias vezes derrubava materiais esterilizados no chão, fazia as colinhas do aparelho com proporções erradas e entregava as lixas diferentes do que a mãe dela pedia. Como era a segunda vez que a via e a última aconteceu a um mês, pensou que a garota devia ter melhorado bastante, mas isso não importava muito, quem ia mexer em seus dentes seria a mãe e não ela.

A jovem o colocou na cadeira verde-gelo e a reclinou um pouco, depois colocou o babador nele.

- Vou pedir para você abrir a boca daqui a pouco, tudo bem?

- Desculpa, mas não é a Dra. Lúcia? – Questionou meio assustado.

- Ela me pediu para ir adiantando as coisas... – Respondeu mexendo em alguns instrumentos metálicos num carrinho atrás dele.

Ele engoliu em seco e disse:

- Eu espero a sua mãe, não tem problema...

- Não, eu já vi a sua ficha, é rápido... Ai, droga! – exclamou depois de um barulho estridente no carrinho. Ele esticou o pescoço para ver, mas só conseguiu enxergar as costas dela.

O loiro ficou meio apreensivo, afinal, era uma estagiária, mas se a Dra. Lúcia a deixou adiantando as coisas significava que ela sabia o que estava fazendo...

- Tá tudo bem aí?

- Sim! – disse com a voz um pouco esganiçada.

- Ok... – ele meio apreensivo.

- Pronto! – virou-se com uma seringa. – Abre a boca.

Ele relutou um pouco mais abriu... Sentiu uma picada e sua boca toda ficar mole.

- O que você está fazendo Renata? – era a inconfundível voz de comando da Dra. Lúcia.

- Desculpe, mãe, eu pensei que...

- Pensou? Por que você está aplicando anestesia nele? – correu para uma mesinha ao lado onde a ficha estava aberta – Ele não é o senhor Nicols!

- Eu juro que ouvi a recepcionista falar Nicols!

Resultado, o policial loirinho teve que pegar um atestado pro dia todo até seu rosto voltar ao normal. A moça havia aplicado uma anestesia um pouco forte demais, acabou por paralisar o rosto dele, o pobre nem conseguia abrir os olhos depois de alguns minutos da aplicação.

...

Em casa, depois de algumas horas, conseguira enxergar de novo, mas ainda sentia sua boca estranha e molenga... Queria dormir por sentir sonolência, estava quase caindo no sono... A campainha começou a tocar, ele custou um pouco a sair da cama, mas decidiu ir pela insistência da pessoa do outro lado, que pelo jeito não o deixaria adormecer em paz enquanto não fosse atendida.

- Ra ai... – disse com um pouco de dificuldade.

Ele olhou pelo olho mágico e era uma mulher muito bonita de óculos escuros e cabelos negros... Tentou arrumar um pouco a juba antes de atender... Mas como ela havia parado de apertar, abriu a porta as pressas antes que fosse embora.

- Esculpi... – disse com a boca mole.

A jovem estava segurando uma sacola muito cheirosa de algo assado, ficou um tempo olhando para ele... Seus lábios estavam hesitantes... Por fim, ela tirou os óculos...

- Nícolas?

Ele reconheceria aqueles olhos ovalados em qualquer lugar:

- Irgínia!


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