Conto: O Presente de Sara

Atualizado: Jan 16



Sinopse: Enfim Sara teve a chance de ganhar seu tão aguardado presente de casamento... Um gatinho! Ou melhor dizendo, uma gatinha! Mas as coisas não saem como deveriam, será que ela realmente vai conseguir o que quer nesse Natal?

*O audiobook está aqui no final do conto*

O Presente de Sara

Época de Natal, o cheiro natalino de pinho, luzinhas queimadas e enfeites empoeirados de plástico impregnavam o ar na cidade. Nem mesmo ali, dentro daquele famoso estabelecimento alimentício, essa atmosfera era deixada de fora... Acontece que Vitor odiava ir a essa famosa rede de fastfood... é aquela em que os lanches vinham mais salada do que carne, aquela que fingia ser saudável...aquela... como é mesmo o nome? Subway? Deve ser.

– Eu tô falando, olha aqui... já é o quinto casal que entra nesse lugar, os caras sempre tão de cara fechada e as namoradas deles tão sempre sorridentes, você não acha isso estranho? No mínimo suspeito... É um complô feminino!

Sara começou a rir enquanto mordiscava seu pão de três queijos, frango empanado e, é claro, a horta inteira, como diria o Vitor.

– Eu sou mais um podrão, mil vezes! Meu negócio é o Flipper.

– Então me dá o seu lanche!

– Não! Eu vou comer o pouquinho de carne que ainda me resta...

– Oh, dó! Tadinho! – Sara apertando a bochecha direita dele, aquela com a covinha charmosa.

Sara e Vitor estavam casados há três meses, eram um jovem casal de vinte e poucos anos, aproveitando e engordando a vida juntos.

– Eu já sei o que eu vou te dar de presente de Natal, sabia?

– Meu Deus! Eu queria ser assim... Eu não faço ideia do que eu vou te comprar!

– Sabe sim, é claro que sabe! E melhor ainda, nem precisa gastar dinheiro algum!

Vitor colocou um dedo em cada uma das têmporas e fechou os olhos.

– O que você tá fazendo?

– Eu estou tentando ler a sua mente...

Sara estava tomando um gole da coca dele bem nessa hora e se engasgou com a própria gargalhada involuntária.

– Amor, você tá bem? – Vitor preocupado dando pequenos tapinhas nas costas dela.

– Estou... – ela continuava rindo.

– Eu não faço ideia do que você quer! Me fala! Eu sou um jumento pra essas coisas!

– Vamos adotar um gatinho!

– Você já tem eu – Vitor apontando os polegares para si – Por que quer outro gato?

Sara riu novamente, mas voltou a ficar séria:

– Você sabe que eu quero muito...

– Sara, a gente já conversou sobre isso... Gatos soltam pelos dentro de casa, arranham os móveis que, inclusive, a gente ainda tá pagando... Ou seja... não dá!

– Eu sei que nesse ponto você tem uma certa razão, mas eu já disse que vou limpar, vou colocar arranhadores pra ele, pôr aqueles protetores no braço do sofá! E ainda vou virar manicure de gato... pode deixar que eu corto as pontinhas das unhas dele!

– Meu Deus! Parecem até aquelas promessas de político... Qual é o seu número para eu votar em você na próxima eleição?

– É o mesmo número do partido do eu amo gatos e o meu marido vai me dar um de Natal, amém.

– Eu acho que vô votar na concorrência, aquele partido do vamos salvar seus móveis planejados...

– Ah, então eu quero uma Mercedes, você escolhe. – Sara com um sorrisinho no canto dos lábios.

Vitor levantou.

– Onde você vai?

– Hué? Eu vou vender os meus dois rins para comprar a Mercedes.

– Haha, besta! – Sara tacando o canudinho na cabeça dele.

...

Em Roseana chovia muito em dezembro, mesmo que naturalmente fosse época das chuvas em todo o estado, lá sempre vinha em dobro, às vezes o triplo. Vitor sentia que o céu ia cair na cabeça dele assim que saiu da empresa. Ele era programador/gerente de projetos/analista/tester/suporte/tia do café (sim, isso mesmo). Estava doido, a única coisa que o confortava era que esse trabalho escravo acabaria dentre em breve. Teria que aguentar só mais uma semana, entraria de férias e então viveria o tão sonhado momento de pedir a conta, já estava tudo certo para mudar de emprego e ter muito mais tempo livre para se dedicar a seus projetos pessoais, enfim, um sonho palpável a poucos dias de distância. Perto da felicidade que sentia, o que era aquela chuva medonha e pavorosa e aquela coisinha sendo arrastada pela enxurrada... O quê?

Vitor se abaixou e pegou a coisinha antes que caísse no bueiro. Era uma gatinha cinza, esquálida e imóvel. Ela ainda respirava, mas estava tremendo de frio. Vitor aconchegou a criaturinha nos braços, abriu o carro desajeitado com a outra mão, colocou-a no painel e ligou o ar-quente.

“Que oração poderosa essa mulher fez! Pelo amor de Deus... O presente dela caiu do céu, praticamente...”, pensou enquanto olhava fixamente pro gatinho que já começava a ronronar.

– Você deve ser de alguém, né?

A gatinha era só pele e osso...

– Tá, esse físico seu entrega as suas origens... Vamos pra casa.

...

Vitor decidiu, antes de mais nada, passar no veterinário, deixou a gatinha lá em observação. Iria buscá-la na manhã seguinte... Estava extremamente nervoso, já havia derrubado o garfo pela segunda vez aquela noite...

– Vi, você está bem?

– É claro que eu estou... Por que não estaria? – Vitor toma um gole rápido de água com limão e se engasga.

– Você está me escondendo alguma coisa, eu sei... – Sara arrastou a cadeira e começou a encará-lo com seus olhos castanhos ovalados.

– Eu... Ah! Não faz terror psicológico...

Ela piscou rápido algumas vezes com seus cílios longos.

– Isso é jogo sujo! Tá bom, eu falo... Eu salvei um gatinho, quero dizer, uma gatinha da enxurrada... Ela tá na Regina...

– Por que o senhor me escondeu isso?

– Porque... Eu não sei se ela vai sobreviver! Daí você ia ficar de coração partido!


– A Luna não vai morrer... praga alguma vai chegar à minha tenda!

Sara recitando uma parte de um dos versículos do Salmo 91.

– Meu Deus! Já deu até nome pro bicho...

– Fala amém! – gritou ela

– Amém! – Vitor assustado... E lá se tinha ido o garfo pela terceira vez.

...

Na manhã seguinte, Sara fora toda saltitante com ele até a clínica, estava doida para pegar seu presente, até o próprio Vitor estava meio bobo, mas por outro motivo, ele o chamava carinhosamente de “a fúria do amor de Sara”:

– Ai, ai... Eu devia ter te dado um gato há mais tempo...– suspirou ele.

Os dois riem e entram na clínica.

– Em que posso ajudar? – era um garoto de aparelho e óculos preto cheio de piercings na cara.

– Eu estive aqui ontem, não lembra?

– Ah! O náufrago... – o garoto disse baixinho enquanto abria a gaveta.

– O que você disse? – perguntou Vitor.

– Nada – ele rindo da própria piada – Preenche esse papel aqui.

– Você chamou meu marido de náufrago e depois falou “nada”, é pra ele nadar? Ele devia estar encharcado, sim, mas foi por uma boa causa! Ele foi um herói, salvou uma gatinha indefesa, sabia disso? – Sara beijando o rosto de Vitor fazendo-o corar.

“É, mas ele podia pelo menos ter limpado o pezão antes de sujar a clínica toda!” Pensou o garoto enquanto dava um sorriso amarelo:

– Eu juro que não disse nada! Me desculpem pelo mal entendido! Vou pegar a gata!

Vitor nada disse, sabia que o garoto provavelmente o havia xingado até sua quarta geração na noite anterior, mas ele não o culpava. Sabia que dava muito trabalho limpar aquele chão encardido. Era o mesmo piso do pet shop da frente, lugar onde trabalhou em sua fase rebelde na adolescência, mas isso é outra história...

Enquanto preenchia, Sara acariciava os cabelos dele. Talvez isso o tenha feito demorar um pouco.

...

O casal já estava esperando fazia mais de meia hora e nada do garoto aparecer:

– Eu devia ter copiado a bíblia, se eu tivesse começado quando ele saiu já tinha acabado...

– O que será que aconteceu? – Sara ficando nas pontas dos pés tentava enxergar pela fresta da porta.

Vitor estava quase berrando, quando a própria veterinária, Regina, apareceu.

– Bom dia, casal mais lindo de Roseana! Mais até que a própria princesa Clara e seu namorado Juliano...

“Aí vem bucha...”. Pensou Vitor levantando uma sobrancelha.

Sara ficou apreensiva e apertou as mãos dele com força.

– Fala logo! – Vitor impaciente.

– Ela está viva, mas a má notícia é que foi adotada por uma outra família...

– Como assim? – os dois dizem juntos.

– Foi um acidente, o Leoneldysson colocou a gatinha no gatil de adoção... Peço desculpas pelo ocorrido! Ah, Vitor! Não me olhe assim! Está me dando calafrios... Já estamos fazendo de tudo para reverter isso! Ele está tentando falar com a família nesse momento!

– Consegui! – o garoto aparece triunfante do fundo da clínica balançando um papelzinho. – Desculpe, vocês podem ir nesse endereço, a mulher disse que vai devolver.

– Obrigado, Leoneldysson! – Vitor dando um tapa dolorido no ombro do garoto.

...

Vitor e Sara descem do carro, a casa tinha o muro baixo, era uma daquelas casas antigas construídas no centro da cidade, os muros da frente eram pichados e a casa precisava urgente de uma mão de tinta (quem sabe até duas).

– Ô de casa! – Vitor batendo palmas.

Uma garotinha de olhos grandes com algumas manchas enrugadas nas mãos aparece.

– Não tem pão duro! – respondeu fechando a porta na cara deles.

– Eu tô tão mal vestido assim pras pessoas me confundirem com um mendigo?

– É claro que não, amor – ela segurando o riso – é só uma criança... Bate outra vez.

– Tá... Mas só por que você pediu... e também porque eu gastei cem contos na clínica com essa gata...

Vitor bate novamente, dessa vez uma mulher muito volumosa aparece segurando uma furadeira.

– Bom dia! – sorriu ela – Em que posso ajudar?

– Desculpe incomodar, mas é que viemos pegar a gatinha.

– Ah, sim, claro, podem entrar.

O casal adentra pelo portão barulhento e enferrujado.

...

A sala da casa era colorida e nada combinava com nada, o que era divertido de se ver. O tapete de crochê e as almofadas de oncinha eram um charme à parte. Havia alguns porta-retratos adornados por conchinhas de praia que eternizavam os momentos daquela família, começando com o casamento, depois o nascimento da filha, da mãe novamente, mas só que dessa vez com um outro homem... E mais algumas fotos da menininha... que os estava encarando ao vivo naquele momento, enquanto sua mãe fora pegar o animal:

– Vocês vieram levar a Ivete embora?

“Eu acho tão engraçado quando as pessoas dão nome de gente pros bichos....”. Vitor começou a rir.

– Querida, é que o meu marido resgatou essa gatinha da enxurrada, sabe?

– Sim, meu papai também me salvou...

– Ah, é? – Sara esperando que ela continuasse a história.

Vitor por sua vez começou a ficar com sono, alguma coisa naquele sofá aconchegante fazia suas pálpebras pesarem.

– Sim, meu papai me salvou... – ela olhando cabisbaixa para as mãozinhas manchadas.

O olhar de Sara foi fisgado pelas fotos mais uma vez... Ela parou... Sentiu que as lágrimas iriam cair, apertou a mão de Vitor e suplicou no ouvido dele:

– Vamos embora!

– Por que? – Vitor bocejando.

– Querida, pode ficar com a Ivete para você tá bom... Deus te abençoe muito! – Sara abaixou e a abraçou com força. – Vamos, Vi...

Vitor mal terminou de se espreguiçar e Sara já havia saído correndo, dava até para ouvir o portão enferrujado se abrindo de novo...

– Sara! – chamou Vitor enquanto corria até o carro.

Sara estava olhando fixo para o vidro da frente enquanto as lágrimas molhavam seu queixo.

– O que foi, amor?

– Por favor, Vi... Aquela garotinha deve ter sofrido tanto, ela precisa muito mais desse presente do que eu! Muito mais! – Sara tentando enxugar as lágrimas com as costas das mãos.

Vitor a abraçou com força. Sara se encolheu nos braços dele e se deixou embalar durante um bom tempo... Ergueu-se de súbito, fitando-o com os olhos marejados:

– Obrigada pelo presente.

– Obrigada? Mas eu nem...

– Não importa... Amor, obrigada!

Ela o segurou no rosto e o beijou.

...

Vitor estava desempenhando suas funções de tia do café agora, o CEO mão de vaca da empresa achava uma boa ideia fazer café no coador... E pra que contratar um copeiro se você tem um programador inútil na empresa, isso evitava tantos gastos, as pessoas não sabem o quanto...

O estagiário novo entrou na cozinha correndo:

– Eu preciso de ar, pelo amor de Deus! – ele vai até a janela e fica alguns segundos com a cabeça pra fora.

– O que aconteceu, Calango?

– Dá para acreditar? O Você Sabe Quem, proibiu a gente de ligar o ar-condicionado de manhã! Ele acha que aquela janela minúscula adianta alguma coisa...

– É a brisa fresca da manhã... – Vitor tentando cantarolar ao mesmo tempo que imitava o chefe. Calango deu uma risadinha, talvez não tenha sido uma imitação tão ruim assim, ou talvez o garoto fosse muito educado, vai saber...

– Ele fez isso na sua sala também?

– Ano passado sim, mas a gente fez greve falando que ia trabalhar na sala do servidor e ele deixou quieto.

– Sério?

– Não, é porque o sobrinho dele tá na nossa sala.

– Ah, agora eu entendi! Agora eu saquei! Agora todas as peças se encaixaram!

Vitor começou a rir, esse meme do Futurama nunca perdia a graça.

– Eu acho que eu vou tomar só café hoje com Fandangos. – ele olhando fixo pro bule de café.

– Tudo isso é preguiça de fazer marmita, é?

– Não! É que a minha vó, quando tá triste, só faz buchada... E eu odeio buchada.

– Ai, comendo a comidinha da vovó... – Vitor afiando a voz.

– Hei, não me zoa não! O que eu posso fazer se ela fica feliz quando faz comida pra mim? Eu, como um bom neto que sou, apenas aceito... Menos quando é buchada... Eu já falei que odeio isso?

– Já, mas o que você fez pra ela ficar triste? Eu já disse pra você parar de usar drogas...

– Haha, que engraçado... Acontece que eu não fiz nada! Nada mesmo! Ela tá triste porque a gata dela pariu...

– Isso é triste por quê?

– Toda vez que ela doa um dos gatinhos começa a chorar, eu queria que isso acabasse logo.

Vitor fechou os olhos como se tivesse feito uma oração de agradecimento rápida e sorriu:

– Eu posso ajudar.

– Sério? Tem só mais dois! Tinha três, mas um deles tá sumido há uns dias... Tomara que ele não volt... Quero dizer, tomara que ele tenha encontrado um lar.

– Tá, eu fico com os dois que restaram, onde a sua tia mora?

– Na quadra de cima, é uma casa com um portão rosa...

– Que cor são os gatinhos?

– São cinzas.

O sorriso de Vitor não podia ficar mais largo.

– Tá, eu vou passar hoje depois do expediente para pegar eles.

– Nossa, cara! Eu nem sei como agradecer!

– Não precisa, eu é que agradeço... E você não sabe o quanto.

FIM

Abaixo a versão em Audiobook ;)


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